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Protesto em forma de arte contra a poluição completa 25 anos

"Continuo com o trabalho na esperança de repercutirem o risco à saúde que é o minério de ferro no ar", diz Kleber Galvêas, que pinta quadros usando a pó preto poluição da Grande Vitória

Vitória
Publicado em 17/05/2021 às 06h01
O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê
O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê. Crédito: Homero Galvêas

Há 25 anos, do dia 17 de março ao 6 de maio de cada ano, o artista plástico Kleber Galvêas deixa uma tela em branco na varanda de seu ateliê, em Vila Velha, exposta ao tempo. Nesse período, o item acumula pó preto e poeira, que depois servem de "tinta" para o pintor desenhar suas obras de arte à base de poluição.

A ideia inicial do projeto "A Vale, a Vaca e a Pena" era provocar as autoridades sobre a seriedade do problema que o minério de ferro no ar pode causar, mas até hoje lamenta que não teve sucesso. Depois de tantos anos na mesmice, a única esperança do artista capixaba é mesmo a de fazer com que mais alguém se interesse pelo tema tanto quanto ele.

“Nesses anos todos, eu só colecionei fracasso, sem nenhum retorno, mas a gente persiste. O que faço é uma provocação artística, não um experimento científico. Também sinto falta de universidades e escolas, principalmente a escola técnica, terem interesse em realizar algo mais científico para provar o lado técnico da coisa”, avalia.

Kleber Galvêas

Artista plástico

"Eu continuo fazendo esse trabalho na esperança de algum dia despertar alguma vontade do governo de agir. E na esperança de essas universidades, principalmente escolas técnicas, fazerem alguma pesquisa mais científica sobre o tema nessa mesma lógica "
O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê
O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê. Crédito: Homero Galvêas

Segundo o artista, no entanto, não é tão difícil verificar que o pó que fica acumulado, de fato, contém ferro e outros metais pesados. Por diversos episódios Kleber já fez o experimento de colocar o insumo de sua arte em um papel e “brincar” com um imã do outro lado do papel. “O resultado é que o pó fica ‘dançando’ em cima do papel, o que mostra que algo que imã atrai, ali, está presente no meio daquela poeira”, justifica.

O passo a passo de Kleber, há 25 anos, é assim: primeiro, ele deixa as telas expostas na varanda de seu ateliê. Um local arborizado e fresco, que fica, inclusive, semi-protegido dos ventos com árvores que estão plantadas no espaço. Depois, ele espera os 50 dias e não mexe no local de trabalho. Quando as telas ficaram tempo suficiente ao tempo, ele reúne a poeira acumulada e desenha, com os dedos, alguma “pintura” que também cumpra o papel social de protesto.

“Cada ano o desenho tem um tema. Veja você que eu pensei que logo no primeiro ano algo fosse mudar. Da primeira vez, desenhei um labirinto com as palavras ‘Encontramos a saída?’. Porque uma das mineradoras da Grande Vitória havia sido privatizada e havia-se essa ideia de que o governo, então, olharia com outros olhos para a poluição. Mas não... Ano passado pintei um sujeito com uma máscara escrito ‘pó preto’ e esse ano, uma ave de rapina com o título ‘asa negra’. Asa negra é aquele cara chato, que fica sempre atrasando sua vida, em cima de você... E no desenho ela está voando pela cidade, uma cidade portuária, pelas chaminés de uma empresa dessas”, confidencia.

MAIS DE 200 MIL VISITAS

Anualmente, ele também abre as portas de seu ateliê para mostrar ao público a coleção de obras de arte feitas com o pó. Até hoje, ele calcula que mais de 200 mil pessoas já tenham passado por lá para ver os itens e neste ano ele deixará a entrada livre até o dia 6 junho. “Mas estão todas aqui, ficam aqui comigo. Mas não são minhas. Elas são de todo mundo, de todo cidadão. No primeiro ano, a Vale teve até interesse em compra-las. Dois diretores estiveram no ateliê para vê-las de perto e negociar, mas me neguei”, lembra.

Ao longo dessas décadas de obras de arte de protesto, Kleber também já tentou chamar mais a atenção do poder público e de reitores até discursando na tribuna da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Em diversos vídeos na internet, ele aparece explicando os males do pó preto e suas consequências a longo prazo, mas também lamenta nunca ter atingido seus objetivos com as ações.

“Na primeira vez, a TV Gazeta foi fazer uma matéria sobre os quadros no ateliê. A repórter mostrou que fizemos 10 telas. Naquela ocasião, pensei que logo naquele ano tudo seria resolvido (risos). Com o tempo, conto mesmo com o apoio da mídia para manter a repercussão sempre acesa. Tenta marcar um otorrino no Espírito Santo. É um mês de espera no mínimo. As pessoas já estão doentes com isso, mas ninguém fala nada”, contrapõe.

E termina: “É claro que têm diversos fatores que têm que ser levados em conta. Tem ano que chove mais, que venta mais... Tudo isso influencia. Mas, a cada ano, vejo a intensidade do pó preto piorar. Do ano passado para esse, a tela ficou muito mais escura. É nítido. Como te disse, é uma provocação artística, não pesquisa científica. Mas por isso vejo tanto a necessidade de algo científico, técnico nesse tema”.

O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê
O artista Kleber Galvêas, de Vila Velha, faz obras de arte anualmente com temáticas de protesto à poluição usando pó preto acumulado na varanda de seu ateliê. Crédito: Homero Galvêas
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