#Blacklivesmatter: músicas e discos que debatem o racismo

De Emicida e Nina Simone, confira obras que enaltecem a negritude e denunciam o preconceito vivido pelos negros

Publicado em 16/08/2020 às 13h00
Atualizado em 16/08/2020 às 17h33
Black Lives Matter
Black Lives Matter. Crédito: Reprodução

O mundo está em ebulição. A constatação não se dá somente por conta da recessão econômica global ou pela crise sanitária da Covid-19, que já matou mais de 700 mil pessoas em todo o planeta.

Também podemos colocar nessa "conta", o caos político instaurado em alguns países, especialmente no Brasil, de Jair Bolsonaro, e nos Estados Unidos, de Donald Trump, além das constantes lutas contra o racismo que mobilizaram protestos em vários cantos, principalmente após o assassinato de George Floyd por um policial branco, na América do Norte, e a morte do menino Guilherme, em terras Tupiniquins.

É nesse contexto que o "Divirta-se" conversou com Mc Adikto e César MC, conhecidos por trabalhos que discutem com propriedade a questão da segregação racial, para levantar um debate: qual música, ou disco, que melhor representa a luta contra o racismo?

Adikto, por exemplo, fez questão de ressaltar a composição “Eminência Parda”, de Emicida, que conta com a participação de Dona Onete, Jé Santiago e Papillon. Lançada em maio de 2019, a música, que começa com os versos “escapei da morte/ agora sei pra onde eu vou/ sei que não foi sorte/ eu sempre quis tá onde eu tô”, ganhou videoclipe considerado genial pelo cantor capixaba.

“Esse clipe é uma obra-prima do rap de protesto e revela toda a podridão do racismo da sociedade média brasileira. Repare que ele foi pensado nos mínimos detalhes”, comenta Adikto. “Excelente musicalidade e cirúrgica na mensagem.”

Por falar em Emicida, “AmarElo”, álbum lançado no ano passado, do qual  “Eminência Parda” compõe uma das faixas, pode ser visto como um "tratado de guerra" no combate contra o racismo.  O nome do disco, inclusive, brinca com a sonoridade da palavra, que, em sua escrita, revela  a união de “amar” e “elo”.

Destaque para a faixa "Ismália", uma moderna adaptação da obra de Alphonsus de Guimarães. Na composição, que conta com a participação de Fernanda Montenegro e Larissa Luz, a clássica história de amor pode ser vista como uma metáfora para o abismo da exclusão social imposta aos negros no Brasil. “Hasthags Preto no topo, bravo!/ Oitenta tiros te lembram que existe pele alva/ e pele alvo”, atiça Emicida, em tons metalinguísticos. 

REALIDADE

Referências poéticas à parte, Adikto acredita que o trabalho de Emicida traz uma denúncia escancarada sobre o preconceito racial. “A prova é de que, por aqui, vimos a população se levantando em favor da vida do menino Guilherme”, cita Adikto, citando o adolescente de 15 anos morto por um sargento da PM, em São Paulo, no mês de junho deste ano.

“Pergunte a qualquer morador de periferia, sobretudo de 2018 pra cá, principalmente após o anúncio do tal pacote anticrime pensado por Sergio Moro: os policiais ficaram ‘mais à vontade’ para matar, mas a verdade é que sempre mataram. A eleição de Jair Bolsonaro encorajou mais os 'maus policiais' a atirar primeiro e perguntar depois”, completa o cantor, que também viu dois de seus raps ressignificados pelos acontecimentos dos últimos meses.

São eles: “Vingadores”, de dezembro de 2019, em parceria com Leoni MC (“E aí, Moro / Caixa 2 não é crime grave?/ A honestidade do mito bateu na trave”) e a coletiva “Primavera Fascista”, de 2018 (“A tua ignorância contamina/ fascismo é um vírus que se dissemina/ informação é a cura/ e o rap é a vacina), que reuniu sete MCs capixabas. Além de Adikto e o mesmo Leoni, conta ainda com Bocaum, Axant, Mary Jane, VK Mac e Dudu.

Ambas premonizaram crises políticas instauradas agora e causaram repercussão nas redes sociais, já nesta época de pandemia. “Muitos seguidores nos marcavam nas redes sociais e postavam os clipes em meio à quarentena. Isso nos deixou muito aliviados e com o coração mais motivado em continuar a denunciar e a se opor a este governo”, completa o rapper capixaba.

EXEMPLOS

Cria do Morro do Quadro, em Vitória, César MC ganhou notoriedade após vencer o tradicional Duelo Nacional de MCs, em Belo Horizonte (MG), no ano de 2017, o que ressalta o excelente momento por que passa a cena de rap e hip-hop local.

"O debate sobre o racismo institucional que vem instaurado no Brasil há anos marca a música capixaba com potência. São diversas vozes ativas e comprometidas em trazer esse olhar de urgência a nossa causa", defende, enumerando algumas faixas dentro do rap, meio em que ele mais dialoga, que defendem o fim da segregação racial. 

"'Mandume1, um trabalho de Emicida, Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin, tem uma força incrível", ressalta o cantor, também destacando faixas como "Capítulo 4 Versículo 3", de Racionais Mcs, ("trabalha o índice de jovens pretos mortos diariamente em nosso país"); e "Cenários", de Melaninas MCs.

"Essa música traz uma questão do racismo urgente, pois aborda a perspectiva feminina sobre o tema", acentua, igualmente enumerando a faixa de Amiri, "Um Dia de Injúria / Pantera Preta".

SÍMBOLOS

A equipe do "Divirta-se" também cita discos que reafirmam a representatividade dos afrodescendentes em sua batalha contra a segregação.

Impossível não começar por "Black is King", o tão comentado e elogiado "álbum visual" de Beyoncé, lançado no final de julho em parceria com a Disney. Aqui, ressaltamos uma cantora flertando com o afrofuturismo - que ressignifica a ideia de que a cultura africana é subalterna -, em faixas que resgatam sua negritude e raízes africanas, em um claro discurso contrário ao racismo.

Na faixa "Already", Beyoncé conta com a participação do compositor ganês Shatta Wale e de Major Lazer. A música já é sucesso em todo o mundo. Um canto de louvor e respeito à raça negra.

O rappper Kendrick Lamar é outro que apresenta trabalhos extremamente críticos em relação ao racismo. Seu disco "Good Kid, M.A.A.D City", lançado em 2012, acabou de bater 400 semanas na tabela Billboard 200, fazendo de Lamar o artista que conta com o álbum de hip-hop que está há mais tempo nas paradas dos Estados Unidos.

Faixas como “Poetic Justice” e seus refrões poderosos, como /“negro não é bom jogo, mano/desculpe”/, batem forte em uma sociedade como a norte-americana, fortemente manchada pela violência contra os afrodescendentes.

Não se pode falar de música e racismo sem citar a diva Nina Simone, que praticamente abriu mão de uma carreira estável para brigar contra o sistema.  

Em 1963, logo após o assassinato do ativista negro Medgar Evers, Nina soube que quatro garotas afroamericanas foram mortas em um atentado a uma igreja nos Estados Unidos. Imediatamente, escreveu “Mississippi Goddam”, uma de suas primeiras composições voltadas aos direitos civis.

A letra defende que o negro não deve aguardar passivamente até que as relações inter-raciais se equilibrem. “Mississippi..." encerrou o álbum “Nina Simone In Concert”, lançado em 1964. Outras faixas do LP sustentavam um tom político, como “Pirate Jenny” e “Old Jim Crow”, que criticava as antigas leis de segregação racial dos estados do Sul dos Estados Unidos.

Voltando ao Brasil, também vale pontuar o trabalho de Baco Exu do Blues, especialmente no álbum "Bluesman", lançado em 2018. Destaque para a poderosa faixa que dá nome ao disco, um desabafo aos estereótipos criados em relação ao homem negro. "‘Eles querem um preto com arma pra cima/ Num clipe na favela gritando cocaína", diz a letra. Mais atual, impossível. 

Música Racismo Cultura

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