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100 anos de Clarice Lispector: autora é tema de sete pesquisas na Ufes

Escritora, que completaria 100 anos neste dia 10 de dezembro de 2020, segue viva no mundo acadêmico e da literatura

Publicado em 10/12/2020 às 05h00
Atualizado em 10/12/2020 às 05h02
Clarice Lispector, escritora brasileira
Clarice Lispector, escritora brasileira. Crédito: Arquivo pessoal

Gênio por trás de obras decisivas da literatura brasileira, como os clássicos "A Hora da Estrela", "A Paixão Segundo GH" e "Água Viva", Clarice Lispector estaria completando cem anos nesta quinta-feira (10). 

A autora (nascida em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia) conta com coletâneas que nos remetem à importância da literatura para entender relações estabelecidas em nosso contexto social. Seus textos são objetos de desejo para pesquisadores, que rotineiramente os utilizam para a produção de conhecimento científico. No Programa de Pós-graduação em Letras da Ufes (PPGL), por exemplo, há pelo menos sete pesquisas sobre a escritora e a explanação de suas obras. 

A doutora em Letras Cristiane Bourguignon – orientada pela professora Stelamaris Coser, do PPGL-Ufes, atualmente aposentada – foi uma das que se debruçou sobre os livros da escritora para entender “A Via Crucis do Desejo Feminino: um Estudo Sobre a Escrita de Clarice Lispector”. A pesquisadora analisou o livro que dá título a sua tese, identificando semelhanças com outras obras de Lispector: "Água Viva", "A Paixão Segundo GH" e "A Hora da Estrela". Trata-se da presença de personagens femininas com pensamentos contemporâneos que, mesmo que escritos no século passado, já apontavam para a pós-modernidade.

Com base nas personagens e em seus comportamentos modernos para época, a pesquisadora afirma ser possível analisar traços de feminismo na escrita, mesmo que Clarice não fosse declaradamente feminista. “Ela nunca teve a intenção declarada de se chamar feminista, ou dizer que a obra dela é feminista. Então, eu faço uma discussão porque muita gente chama a escrita da Clarice de literatura feminina”, acrescenta Cristiane Bourguignon.

Outros projetos que usam o texto de Clarisse Lispector no Programa de Pós-graduação em Letras da Ufes são: "Femininos, Identidades e Trânsitos em Narrativas de Clarice Lispector", de Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres;  "Da Falta ao Dom: uma Leitura de Clarice Lispector", de Marcela Ribeiro Pacheco Paiva; "Clarice Lispector nos Confins do Simbólico, a Invenção do Sujeito", de Leda Mara Ferreira; "O Indizível em Clarice Lispector: uma Leitura em Interface com a Psicanálise", de Ana Augusta Wanderley Rodrigues de Miranda; "A Alteridade em Clarice Lispector", de Helena Cirelli Guedes; "A Literatura do Fora em Perto do Coração Selvagem, de Clarisse Lispector", de Diana Carla de Souza Barbosa; "A Intuição como Método na Composição de 'Água Viva', de Clarisse Lispector: A Vizinhança da Literatura e a Filosofia de Bergson", de C. Oliveira. 

POLÊMICAS

Sobre a publicação "A Via Crucis do Corpo", a pesquisadora Cristiane Bourguignon conta que a crítica da época não a recebeu bem. O livro, que versa sobre experiências amorosas femininas, foi encomendado pela editora da maneira como deveria ser feito. Mas Clarice era conhecida por escrever para a alta sociedade. Portanto, já era esperada a rejeição para uma obra que trazia a prostituição como temática, mesmo sem citar o sexo de forma explícita.

A escritora produziu diversas obras consagradas pela crítica, que foram traduzidas para mais de quinze idiomas. Uma das mais conhecidas é "A Hora da Estrela", que ganhou adaptação para o cinema. Outras que ganharam destaque, inclusive fora do Brasil, são "Perto do Coração Selvagem" e "Água Viva".

Retrato de Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia, na época do lançamento de seu livro
Retrato de Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia, na época do lançamento de seu livro "Visão do Esplendor", uma coletânea de textos sobre Brasília. Crédito: Folhapress

Clarice Lispector gostava de produzir ao redor da família. Geralmente, escrevia na sala, cuidando dos filhos. Ela tentava não se isolar em um quarto, para se fazer mais presente. Preocupada com a participação na vida doméstica, mostrou-se uma boa mãe para Pedro e Paulo.

Uma lembrança, conferida pela pesquisadora Cristiane Bourguignon em conversa com o filho de Clarice, Paulo Gurgel, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, aponta para o Dia das Mães de 1974, em que a escritora, ao almoçar com um dos filhos, assinou um cheque para pagar a despesa da refeição com “10 de mãe”, ao invés de “10 de maio”.

Para ela, ser mãe era de grande importância. O motivo era a origem do seu nascimento: sua mãe estava doente, e a crença da família dizia que, quando uma mulher passava por essa situação, precisava engravidar para ser curada. No entanto, a progenitora faleceu dez anos depois do seu nascimento.

Todos esses fatos marcaram a vida de uma das maiores escritoras do Século XX, que adotou o Rio de Janeiro como sua cidade até dezembro de 1977, quando morreu vítima de um câncer. Clarice Lispector marcou não só uma geração. Suas obras, escritas décadas atrás, apresentam fortes elementos contemporâneos.

ALGUNS TRABALHOS DE DISSERTAÇÃO SOBRE A LITERATURA DE CLARICE LISPECTOR

(Com informações da Universidade Federal do Espírito Santo)

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