Para os estudantes que já sonham em ver seu nome na lista de aprovados do Enem, o segredo para uma boa nota que pode garantir a aprovação está na rotina.
Foi o que percebeu Victor Ferreira, de 19 anos, aprovado em 1º lugar geral na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) no Enem 2025 e atual estudante de Engenharia de Computação na Politécnica da USP.
Em 2024, seu primeiro ano de cursinho, Victor costumava conferir os simulados de forma superficial. "Eu tinha o hábito de fazer simulados, fazer as questões da apostila ou do livro e corrigir de uma maneira preguiçosa, só prestando atenção se tinha acertado ou errado, sem pensar no que me levou a errar aquela questão ou no que eu poderia fazer de diferente para não errar mais aquele modelo", relata.
Como as provas de vestibular costumam seguir padrões de cobrança e estilos de questões, a análise mais específica dos erros fez sua média em Ciências da Natureza saltar de 36 para mais de 42 acertos, constantemente, o que fez toda a diferença na média final.
O estudante também aponta o fim do que chama de "autoenganação" nas horas de estudo como divisor de águas. Deixar o celular longe para evitar olhar as notificações permitiu alcançar o foco profundo durante as tardes de preparação.
"Em 2024, eu enganava a mim mesmo. Dizia que estava estudando, mas não estava: toda hora tocava uma notificação e me tirava do foco. Parar de mentir para mim mesmo e manter a rotina nos horários de estudo foi crucial, porque, na prova, você vai estar cansado, e se manter firme no dia a dia prepara seu corpo e sua mente, o que aumenta seus acertos", destaca.
No caso do estudante Luis Felipe Walder, aprovado em 1º lugar no curso de Direito da Ufes, a virada de chave aconteceu quando ele percebeu que precisava transformar o estudo passivo em ativo. Com a mudança da rotina, também mudou a metodologia de preparação: passou a focar na resolução de exercícios e a resumir os conteúdos mais densos em fichas curtas.
Em Matemática, Luis Felipe saiu de 32 acertos no primeiro simulado do ano para 43 no Enem. Decidiu ir atrás de uma apostila com as provas dos últimos dez anos do exame. Nos fins de semana, ele resolvia as provas da mais recente para a mais antiga e chegou a fazer 60% de todo o material. Nesse caminho, percebeu que os padrões das questões se repetem, mudando apenas dados e números. O medo da prova, que costuma ser um bloqueio grande para os alunos, foi dando lugar à confiança.
Em matérias mais teóricas, como História, Geografia, Português e Biologia, Luis resumia o conteúdo em fichas pequenas nos fins de semana, feitas a partir das anotações de aula e do livro.
“Isso me ajudou muito na revisão, porque eu não precisava revisar páginas e páginas, mas fragmentos de resumos que eu mesmo tinha feito e confiava”, explica.
Assim como Victor, o celular também ficou fora da mesa de Luis Felipe. Ele usava um aplicativo que bloqueava o aparelho para facilitar a concentração, já que sentia vontade de mexer quando o via por perto.
Os dois estudantes dizem que a estratégia de prova tem que ser construída ao longo do ano, nos simulados, e não só nas últimas semanas. Victor começou a fazer simulados já em fevereiro e foi ajustando o ritmo para dar conta das 90 questões de cada dia do Enem.
Luis Felipe afirma que percebeu uma diferença grande entre estudar para o vestibular e aprender a estudar o vestibular, ou seja, a fazer a prova. Entender a Teoria de Resposta ao Item (TRI) fez parte disso.
Na hora da prova, ele alternava as áreas para não cansar o cérebro. No primeiro dia, escrevia metade da redação logo no início, seguia para as objetivas, alternando de 20 em 20 questões, e voltava para terminar o texto e passá-lo a limpo.
Victor seguia um roteiro parecido no primeiro dia. Ao abrir o caderno, lia o tema e os textos motivadores da redação para que a mente processasse os argumentos enquanto ele resolvia as questões objetivas. Começava por metade das de Ciências Humanas, por ter mais segurança no conteúdo.
Passava para metade de Linguagens, escrevia a redação já estruturada na cabeça e terminava as questões restantes dos dois cadernos. Quando travava em alguma questão, descartava as alternativas absurdas, para não refazer a análise do zero no fim da prova.
Os dois chegaram à aprovação por caminhos diferentes em relação ao descanso. Luis encerrava os estudos às 20h para jantar, ficar com a família e dormir bem. “Não é questão de estudar mais; é questão de estudar melhor”, diz.
Para Victor, o caminho foi mais pesado. Depois de não alcançar a vaga que queria em Engenharia de Computação em 2024, ele decidiu fazer mais um ano de pré-vestibular. A rotina de 2025 consistia em aulas pela manhã e tardes inteiras dedicadas a simulados, provas antigas e à revisão do conteúdo.
Ainda de acordo com Victor, todo estudante de vestibular sabe que esse período é muito difícil, marcado pelo sentimento de desamparo e de falta de forças. Confirma que abriu mão de sua vida social e que sua rede de apoio e atividades físicas o ajudaram.
Na reta final, o melhor conselho é evitar mudanças.
Com a prova já próxima, não é hora de inventar moda ou mudar drasticamente o modelo de redação e a forma de resolver questões. A ansiedade é normal e mostra que você se empenhou o ano todo. É preciso ter maturidade para avaliar a evolução de forma racional e não emocional.
Victor Ferreira, estudante da USP