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Opinião da Gazeta

Sem testagem ampla, Brasil fica sem bússola para tomar decisões

País precisa investir seriamente no mapeamento de contaminação e blindagem da população, para interpretar o cenário real da doença por região e tomar medidas de flexibilização do isolamento social de forma segura

Publicado em 02 de Maio de 2020 às 06:00

Públicado em 

02 mai 2020 às 06:00

Colunista

Data: 12/03/2020 - Profissional em laboratório realiza teste de coronavírus. Freepik
Brasil fez pouco mais de mil testes por milhão de habitantes, enquanto Suíça fez 20 mil a cada milhão Crédito: Freepik
Antes mesmo de o Brasil atingir o pico da pandemia de coronavírus, que o próprio ministro da Saúde, Nelson Teich, admitiu não saber quando chegará, várias cidades brasileiras já afrouxaram o isolamento social e a pressão pela flexibilização em outros cantos só aumenta. Mas o que seria a bússola para indicar o caminho certo para cada região não funciona. Sem testes suficientes para mapear infectados e recuperados, o país não tem dados em mãos para orientar decisões seguras.
Países que são considerados exemplos na testagem ampla da população, como Alemanha, Coreia do Sul e Suíça já entraram em uma fase de abertura lenta e gradual. Mas os parâmetros são bem distintos do cenário brasileiro. A Coreia zerou o contágio. A Suíça, além de reduzir a taxa de contaminação, conseguiu testar 20 mil pessoas a cada milhão de habitantes, o que forneceu um retrato bem fiel da doença no país. Já a Alemanha viu a transmissão da Covid-19 voltar a subir após relaxar isolamento.
Ao contrário desses países, que levantaram dados sobre contaminação e blindagem com nitidez, o Brasil trafega sob forte neblina. Embora Teich tenha assumido o Ministério da Saúde apostando na testagem em massa para “administrar o momento e planejar o futuro”, esta ainda não é a realidade. O governo federal não sabe sequer informar com precisão quantos testes já foram realizados ou quantos kits estão disponíveis no país.
A meta do Ministério da Saúde é oferecer 46,2 milhões de exames até setembro. Até o fim do mês passado, havia distribuído 2,5 milhões. Quantos foram oferecidos por Estados, municípios e pela iniciativa privada? Teich poderia mais uma vez afirmar, como fez sobre o pico da pandemia, que “ninguém sabe”. Mas diz que a integração das bases federal, estadual e municipal está nos planos do governo.
Quem oferece um indicativo da capacidade de testagem brasileira é o Worldometers, que compila informações da OMS, de centros de controle e de pesquisas científicas. A plataforma calcula que o Brasil tenha realizado até o momento cerca de 1.373 testes por milhão de habitantes. Esse número coloca o país entre os que menos diagnosticam a doença, na lista dos 15 mais afetados.
Espírito Santo está em uma situação um pouco mais confortável que a média nacional, com cerca de 3 mil exames por milhão de capixabas. Mais do que o dobro do índice brasileiro, mas bem atrás da campeã Suíça, com seus 20 mil por milhão de moradores. E os testes de farmácia, que acabam de ser autorizados, podem mais confundir do que ajudar, alertam especialistas, devido ao alto grau de falsos positivos.
O baixo índice de diagnósticos não é uma exclusividade brasileira, mas um quadro comum na América Latina. Na corrida por reagentes, a região ficou para trás, em parte porque entrou tarde na disputa, em parte por decisões contestáveis. Além de poucos testes, o Brasil ainda enfrenta entraves na demora do diagnóstico. No fim de abril, mais de 150 mil testes colhidos ainda aguardavam análises e, desse montante, mais de 40 mil nem haviam chegado aos laboratórios.
O Brasil precisa investir seriamente na capacidade de testagem para interpretar o cenário real da doença por região e conseguir quebrar o ciclo de transmissão, isolando doentes, inclusive os assintomáticos. Sem essa bússola na mão, as discussões sobre que caminhos seguir são meras opiniões, logo inócuas e potencialmente perigosas.

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