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Gás de cozinha a R$ 125 torna a sobrevivência dos mais pobres ainda mais dura

Os efeitos da conjuntura externa na vida das pessoas estão evidentes com o preço do gás de cozinha nas alturas. Não se pode esquecer que alimentação é também dignidade

Publicado em 25/03/2022 às 02h02
Cozinha
Botijão de gás. Crédito: Procon Vitória/PMV

Com o aumento mais recente do gás de cozinha, cerca de 10% do salário mínimo do trabalhador passaram a estar comprometidos com a compra do botijão. Os R$ 125 que precisam ser desembolsados no Espírito Santo para adquirir esse item essencial na alimentação das famílias se soma à cesta básica, que em fevereiro ficou 0,74% mais cara que no mês anterior em Vitória, chegando a R$ 682,54, a quinta mais cara do país. 

Juntos, correspondem a 66% da renda mínima mensal, sendo que essa situação financeira dramática chega a ser um privilégio por considerar aqueles que têm um emprego e um salário em um país de tantos informais e sem trabalho. Importante lembrar a série de reportagens recente deste jornal sobre a pobreza  no Espírito Santo. Dados de 2021 apontam no Estado 1,1 milhão de pessoas na faixa de pobreza, que vivem com R$ 425 mensais. Na extrema pobreza, são 394 mil, que sobrevivem com R$ 146 por mês. Pouco mais que o valor do botijão.

Não é de se espantar que para atrair consumidores, as revendedoras estejam parcelando em até três vezes a botija, com juros. Mesmo que não seja uma opção vantajosa do ponto de vista financeiro, sobretudo por se tratar de um produto que em dois meses de consumo médio precisará ser reposto, a necessidade pode acabar falando mais alto. O que mostra que a escalada de preços coloca a sobrevivência acima do bom senso. O endividamento, nesses casos, tem um impacto ainda mais dramático na vida de quem tem tão pouco.

Em novembro passado, este jornal mostrou que muitas famílias têm sido forçadas a abandonar o botijão e passaram a adotar o fogão à lenha para cozinhar os alimentos. É um retrocesso social, com riscos até mesmo à saúde e à segurança com o uso de estruturas inadequadas ou a queima de materiais tóxicos para produzir a chama. Imaginar que pessoas são alijadas do uso de uma tecnologia segura e precisam retroceder a um mecanismo arcaico é um sinal de uma desigualdade que ainda parece distante de ser superada.

Os aumentos recorrentes provocaram reações. Em setembro passado, a Petrobras anunciou um programa social de apoio a famílias em situação de vulnerabilidade para a compra de gás de cozinha. Na ocasião, foi divulgada a destinação de R$ 300 milhões em um período de 15 meses. Em novembro, o presidente Jair Bolsonaro sancionou um auxílio gás para subsidiar o valor para pessoas de baixa renda. A inflação já provocava um rombo no bolso dos mais pobres, e ainda não havia uma guerra no horizonte do mercado de petróleo internacional. 

O sofrimento dessas pessoas precisa mobilizar o país para além de medidas paliativas, mas para transformações estruturais. É impossível que qualquer país no mundo não sinta os impactos econômicos de uma pandemia ou de uma guerra, mas as fragilidades do Brasil sempre o colocam à beira de uma ribanceira. Qualquer empurrão é fatal. 

Os efeitos da conjuntura externa na vida das pessoas estão evidentes com o preço do gás de cozinha nas alturas. Não se pode esquecer que alimentação é também dignidade na hora de produzir o que vai ser ingerido. É triste demais, até mesmo vergonhoso para o país, que cada vez mais pessoas não tenham acesso nem à comida, nem aos instrumentos necessários para consumi-la.

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