Festival de falhas do auxílio emergencial não anula sua necessidade

O governo federal acaba de anunciar a prorrogação do pagamento do auxílio emergencial por mais dois meses. É inevitável: onde há uma brecha, há alguém tentando se dar bem, mesmo que à custa do sofrimento de tantos

Publicado em 06/07/2020 às 06h00
Atualizado em 06/07/2020 às 06h00
Governo e Congresso discutem prorrogação do auxílio emergencial
Governo vai prorrogar o auxílio emergencial por mais dois meses. Crédito: rafastockbr/ Shutterstock

Assim que o auxílio emergencial começou a ser distribuído, em abril, foi como se abrissem a Caixa de Pandora, deixando escapar todos os males possíveis. Desde o início, sabia-se que seria impossível conter os aproveitadores, mas a urgência de fazer a renda chegar aos mais necessitados para garantir sua sobrevivência durante a pandemia deveria estar acima de tudo, com ajustes sendo realizados no decorrer do processo. E assim foi feito, corretamente. Só que não há como não se impressionar com o tamanho do estrago até agora. Nem a maior crise sanitária desta geração está sendo capaz de frear os impulsos criminosos.

Primeiro, os R$ 600 não encontraram facilmente o bolso de uma parcela considerável da população, fora de cadastros sociais do governo. E também de imediato tomou forma uma grande contradição: enquanto engrossou-se uma fila de espera que chegou a 10,6 milhões de pessoas aguardando uma resposta do governo para receber o auxílio, solicitantes não qualificados para o recebimento da ajuda governamental, em ações fraudulentas, tiveram acesso ao dinheiro com uma rapidez invejável.  O paradoxo expõe as deficiências na distribuição, que ainda não conseguiram ser sanadas. Fraudes continuam ocorrendo. E quase 2 milhões de pessoas ainda não sabem se terão o valor liberado.

Na semana passada, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou  a suspensão da concessão a 620 mil pessoas em todo o país por suspeita de fraude.  Há até 17 mil mortos entre os beneficiários. Os pagamentos irregulares podem causar um prejuízo de mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos, caso não sejam interrompidos.  Há aposentados da Justiça Federal e do Banco Central, com aposentadorias de R$ 25 mil e R$ 50 mil por mês, na lista.  No governo estadual, há mais de mil servidores ativos e inativos que receberam o benefício. E os exemplos de oportunistas se avolumam, reforçando um déficit ético que não dá trégua nem na calamidade.

Agora, a nova modalidade de golpe afeta quem de fato depende do auxílio para atravessar a crise sanitária. Bandidos estão tendo como alvo não só ao auxílio emergencial, mas também o  benefício emergencial de preservação do emprego e da renda (BEm). Os criminosos estão se aproveitando de falhas nos aplicativos para acessar os sistemas de pagamentos criados pelos bancos públicos e roubar as quantias depositadas. 

É inevitável: onde há uma brecha, há alguém tentando se dar bem, mesmo que à custa do sofrimento de tantos.  O governo federal acaba de anunciar a prorrogação do pagamento do auxílio emergencial por mais dois meses. Não há fraude ou roubo que justifique a interrupção do benefício em um momento tão dramático para um exército de brasileiros sem emprego ou impedidos de trabalhar. Mas o Estado precisa também urgentemente se cercar de mais segurança para minimizar essas falhas estruturais que causam tantos prejuízos aos cofres públicos.

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.