Publicado em 26 de abril de 2021 às 13:20
SÃO PAULO - O aumento da taxa básica de juros (Selic) e da inflação tendem a encarecer as linhas de financiamento imobiliário atreladas à poupança e ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e a deixar as modalidades tradicionais (prefixadas) mais vantajosas.>
Essas linhas --cujos juros contam com uma taxa fixa mais uma porcentagem baseada na variação desses índices-- são novas, e cada vez mais têm sido usadas por alguns dos grandes bancos para impulsionar o crédito imobiliário em um cenário de juros historicamente baixos e demanda reprimida no setor.>
Não são todos os bancos que oferecem as linhas pós-fixadas. Entre os grandes bancos, o financiamento imobiliário atrelado ao IPCA atualmente é oferecido somente pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, enquanto o crédito atrelado à poupança é oferecido apenas pelo Itaú e pela Caixa Econômica.>
Tais modalidades apareceram como diversificação nas ofertas de financiamento imobiliário das instituições financeiras e, pelo menos enquanto os juros básicos e a inflação estavam controlados em patamares baixos, eram atrativas para os consumidores.>
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Agora que essas taxas começam a subir, no entanto, a tendência é de uma correção para cima no custo para os tomadores --tanto para créditos novos, como para aqueles que pegaram um financiamento do tipo ao longo dos últimos anos.>
"Os bancos já estavam ofertando bastante essas linhas indexadas e é preciso cuidado. Vimos o crédito imobiliário batendo recorde e muita gente pode ter escolhido essas linhas porque realmente estavam mais baratas. Mas agora o cenário já começa a mudar", afirmou Maurício Godoi, professor da Saint Paul Escola de Negócios.>
Segundo o último relatório Focus do Banco Central, a projeção é que a inflação termine este ano em 4,92% -há quatro semanas, a previsão era de 4,71%.>
Já em relação à Selic, a projeção é que a taxa básica de juros encerre 2021 em 5,25% ao ano (contra 5,00% há quatro semanas) -a Selic começou este ano em 2%.>
Para 2022, a expectativa é que a inflação e a Selic encerrem em 3,60% e 6% ao ano, nesta ordem. Para 2023, as projeções passam para 3,25% e 6,50% ao ano, respectivamente.>
Além de o aumento da Selic influenciar nos juros prefixados cobrados nas linhas mais tradicionais --que cobram uma taxa fixa mais a TR (taxa referencial, atualmente zerada) e representam a maioria das concessões do mercado--, a taxa também influencia na poupança.>
Pela regra atual, a poupança tem rendimento equivalente a 70% da Selic mais a variação da TR. Na prática, isso significa que o aumento da taxa básica influencia diretamente nos juros do financiamento imobiliário atrelado à caderneta.>
No início do ano, por exemplo, um consumidor pagava juros de 5,4% nessa linha de crédito -considerando taxa fixa de 4% ao ano e a Selic em 2%.>
Ao final de 2021, caso as projeções do Focus se concretizem e a Selic atinja ao menos 5% ao ano, esse mesmo consumidor pagará juros de 7,5% -um aumento de 38,8% em relação ao que pagaria no início do ano.>
A variação ao longo do tempo também acontece nas linhas atreladas à inflação --que podem acabar sendo desvantajosas para mutuários diante da alta volatilidade do indicador no atual cenário macroeconômico.>
As taxas das linhas mais tradicionais costumam ser prefixadas a partir de 7%, aproximadamente.>
No final de março, a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) divulgou que o crédito imobiliário bateu um novo recorde em fevereiro, atingindo R$ 12,45 milhões -recorde nominal para o mês na série histórica iniciada em 1994 e quase o dobro em relação a igual mês de 2020 (R$ 6,38 milhões).>
Para a presidente da associação, Cristiane Portella, a maior demanda por crédito imobiliário ao longo de 2020 também foi um reflexo dos efeitos trazidos pelo home office imposto pela pandemia do coronavírus.>
"Estamos vivendo um momento de maior valorização da residência, com as pessoas buscando viver melhor. E aqueles que não perderam seus empregos ou que cuja empresa não quebrou, continuam com seus planejamentos. Para este ano, nossa previsão é de um crescimento de 27%", disse.>
A projeção, segundo Portella, já considera uma expectativa de aumento dos juros. No ano passado, o crescimento do setor foi de 58%.>
Segundo Godoi, uma boa alternativa para os consumidores que tomaram linhas atreladas ao IPCA e à poupança --e agora começam a ver as taxas decolando--, pode ser a portabilidade de crédito para instituições que ofereçam melhores condições.>
"Não tem muito o que fazer. A melhor saída é tentar negociar com o banco ou fazer a portabilidade, sempre prestando atenção e fazendo uma análise dos possíveis custos que essa portabilidade pode implicar", disse.>
Os especialistas afirmam ainda que o cuidado e a análise dos juros antes da contratação do crédito podem poupar dores de cabeça futuras.>
"A variedade de linhas é importante para o consumidor, mas alguns cuidados precisam ser tomados antes da contratação. É preciso fazer uma busca em várias instituições financeiras, comparar condições de juros e prazos e sempre olhar o CET [custo efetivo total], que soma taxas adicionais que os bancos cobram", afirmou o presidente da plataforma digital de crédito imobiliário Credihome, Bruno Gama.>
Gama recomenda consultar especialistas e até estudar as projeções de taxas de juros para os próximos anos.>
"É importante o tomador estar ciente do seu contrato e das taxas cobradas para saber fazer boas escolhas", disse.>
Com taxas prefixadas
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Com taxa fixa + TR (taxa referencial)>
Mais tradicional, responde pela maioria das concessões feitas no mercado. Como a variação é baseada na TR, hoje zerada, pode ser vantajosa. Porém, caso a TR se altere, as parcelas do crédito podem subir. Os juros começam em cerca de 6,25% ao ano>
Atrelado ao IPCA (inflação oficial do país)>
Atrelado à poupança>
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