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Empresas perdem R$ 284 bi em valor de mercado com ameaça ao teto de gastos

A estatal Petrobras perdeu R$ 24,15 bilhões, liderando a lista dos prejuízos, seguida pelas empresas Vale, Magazine Luiza, Rede D'Or e Ambev

Publicado em 22/10/2021 às 09h36
Edifício sede da Petrobras
Edifício sede da Petrobras: estatal foi a que perdeu maior valor de mercado ao longo desta semana. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

As empresas listadas na Bolsa de Valores brasileira perderam R$ 284 bilhões em valor de mercado em três dias após o governo revelar que poderá furar o teto de gastos para aumentar o valor do novo Bolsa Família.

Na última segunda-feira (18), as ações na Bolsa valiam R$ 4,984 trilhões. Ao final do pregão desta quinta-feira (21), o valor caiu para R$ 4,700 trilhões, segundo dados levantados pela desenvolvedora de sistemas de análise financeira Economatica.

A estatal Petrobras perdeu R$ 24,15 bilhões no período, liderando a lista dos prejuízos, seguida pelas empresas Vale (-R$23,9 bi), Magazine Luiza (-R$ 12,3 bi), Rede D'Or (-R$ 8,1 bi) e Ambev (-R$ 7,55 bi).

O Ibovespa, índice de referência da Bolsa, vem afundando desde terça (19). Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), preocupado com a popularidade às vésperas da campanha eleitoral, determinou que o benefício seja de R$ 400, acima dos R$ 300 estimados anteriormente.

Para cumprir a determinação de Bolsonaro, o governo precisaria furar o teto de gastos - regra que limita o crescimento das despesas públicas.

Para driblar a regra, o governo e seus aliados no Congresso inseriram na  Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que adia o pagamento de precatórios - uma mudança na correção do teto de gastos que, na prática, expande o limite das despesas federais.

O conjunto das alterações previstas cria um espaço orçamentário para despesas de R$ 83 bilhões no ano eleitoral de 2022. A manobra causou uma debandada no time do ministro Paulo Guedes (Economia).

O próprio ministro, porém, havia falado, nesta quarta-feira (20), em licença para gastar fora do teto. A adesão de Guedes à proposta piorou o cenário, na avaliação dos investidores.

A Bolsa fechou em queda de 2,75%, a 107.735 pontos, a menor pontuação desde 23 de novembro. O dólar subiu 1,88%, a R$ 5,6670, nesta quinta, a maior cotação desde 14 de abril.

Em meio à turbulência gerada pelas declarações do ministro, os juros futuros aumentaram os prêmios, com o DI para janeiro de 2025 em alta de quase 60 pontos-base, a 11,48% ao ano.

A percepção do mercado sobre o risco de inadimplência do país, medido pela valorização dos contratos de CDS (Credit Default Swap) com prazo de vencimento de cinco anos, avançou 6,05%, a 226,20 pontos, o patamar mais alto desde março.

Para analistas, Guedes jogou a toalha ao abrir espaço para a ala política do governo decidir sobre o aumento de gastos, deixando de ser a última barreira para a implosão do alicerce fiscal do país.

"A situação de perda do alicerce fiscal pode gerar mais inflação, que gera mais alta nos juros, e a gente entra naquele ciclo conhecido de Brasil", afirmou Rodrigo Marcatti, especialista da Veedha Investimento.

"Se tem uma coisa que o mercado não gosta é de governo que dá guinadas populistas e flerta com a irresponsabilidade fiscal, ainda mais tratando-se de um país emergente como o Brasil", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

MERCADO "NERVOSINHO"

Em sua live semanal, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o mercado fica "nervosinho" com a criação de despesas que ameaçam o teto de gastos, como o auxílio para caminhoneiros anunciado pelo mandatário nesta quinta-feira (21).

"Vão ter novos reajustes dos combustíveis? Certamente teremos. Por que vou negar isso daí? Estamos buscando solução. O auxílio de R$ 400 para caminhoneiros, que vai estar abaixo de R$ 4 bilhões por ano, dentro do Orçamento. Daí fica o mercado nervosinho. Se vocês explodirem a economia do Brasil, pessoal do mercado, vocês vão ser prejudicados também", afirmou Bolsonaro.

Mais cedo, antes da transmissão, Bolsonaro disse à CNN Brasil que o ministro Paulo Guedes (Economia) permanece no governo, mesmo após a debandada de secretários da pasta.

Nesta quinta, a exigência de Bolsonaro de turbinar gastos em ano eleitoral e a manobra para driblar a regra constitucional do teto de gastos derrubaram a Bolsa, fizeram disparar dólar e juros e causaram demissões na equipe de Guedes.

Quatro secretários da equipe econômica pediram demissão nesta quinta-feira (21) por discordarem das decisões. Pediram para deixar o governo dois dos principais nomes do núcleo da pasta, o que comanda as contas públicas.

O maior representante da área, abaixo de Guedes, é o secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal. Ele e o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt - subordinado a Funchal - , pediram exoneração dos cargos.

Durante a live, Bolsonaro não citou nominalmente os auxiliares demissionários, mas se referiu a eles ao citar que "tem secretário que quer fazer valer sua vontade".

A debandada na equipe econômica ocorreu após semanas de escalada da pressão do Palácio do Planalto sobre a equipe econômica por mais recursos, e horas após a formalização de uma proposta do governo para driblar o teto de gastos, regra que limita o crescimento das despesas públicas federais.

A medida abre margem de ao menos R$ 83 bilhões no Orçamento em ano eleitoral, inclusive para turbinar emendas parlamentares, recursos direcionados pelos deputados e senadores para bases eleitorais.

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