Publicado em 16 de junho de 2021 às 22:05
Para tentar conter a crescente escalada dos preços, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central elevou novamente a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 4,25% ao ano, nesta quarta-feira (16). A alta havia sido sinalizada pela autoridade monetária na reunião anterior, em maio. >
A Selic voltou ao patamar em que estava até 18 de março de 2020, quando o Copom começou a cortá-la em reação aos efeitos da pandemia sobre a economia. >
No comunicado, o BC sinalizou nova alta na mesma magnitude para a próxima reunião, em agosto, para 5,00%. O Comitê, contudo, não descartou uma elevação ainda maior caso as expectativas do mercado para a inflação especialmente de 2022 continuem subindo. >
"Uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante pode exigir uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários. O Comitê ressalta que essa avaliação também dependerá da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e de como esses fatores afetam as projeções de inflação", disse o texto. >
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O BC mudou a avaliação sobre até que patamar a Selic deve subir e afirmou que levará a taxa básica até o nível considerado neutro, que não estimula nem contrai a economia. Nas reuniões passadas, a avaliação era que a atividade ainda precisava de estímulo e que esse ajuste seria parcial, ou seja, abaixo da taxa neutra. >
"Esse ajuste é necessário para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação. O Comitê enfatiza, novamente, que não há compromisso com essa posição e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação", afirma o comunicado. >
Atualmente, a taxa de juros neutra gira em torno de 6,5%. Mais uma vez o BC afirmou que o choque inflacionário é temporário, mas reiterou que a persistência da alta de preços segue maior que o esperado, sobretudo entre os bens industriais.
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Adicionalmente, a lentidão da normalização nas condições de oferta, a resiliência da demanda e implicações da deterioração do cenário hídrico sobre as tarifas de energia elétrica contribuem para manter a inflação elevada no curto prazo, a despeito da recente apreciação do real." >
No comunicado, o BC afirmou estar "atento à evolução desses choques e seus potenciais efeitos secundários, assim como ao comportamento dos preços de serviços conforme os efeitos da vacinação sobre a economia se tornam mais significativos". >
A decisão veio em linha com as expectativas do mercado. Em levantamento feito pela Bloomberg, todos os economistas consultados projetavam a elevação. >
Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, não houve surpresa na decisão. "Também em linha com o esperado o BC tirou o termo parcial do ajuste monetário, sugerindo que a taxa Selic será conduzida para o patamar tido como neutro em seu ciclo. Ainda que a autoridade tenha afirmado que não se trata de um compromisso, esses fatores serão precificados amanhã", afirmou.
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O analista diz acreditar que o BC abriu caminho para uma elevação de 1 ponto percentual na próxima reunião, mas manteve a projeção de que a Selic será elevada em 0,75 ponto em agosto e chegará a 6,5% antes do fim do ano. Ele avalia que a taxa permanecerá neste patamar até o fim de 2022. >
O economista da Messem Investimentos Gustavo Bertotti afirmou que o BC se mostrou mais preocupado com a inflação em relação aos comunicados anteriores. >
"É uma postura 'hawkish' [mais incisiva na alta de juros] que contribui para ancorar as expectativas para 2022 e também na pressão sobre os preços. Tudo isso se justifica na recuperação [econômica] e na revisão das expectativas, além da aceleração da vacinação e do afrouxamento de medidas de restrição", disse. >
João Beck, economista da corretora BRA, considera o comunicado mais duro que os anteriores. "[O Copom] Retirou a expressão de ajuste parcial e também não passou a mensagem de que o país exige níveis estimulativos de juros, justamente para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação", destacou.
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O analista também enfatizou que o comunicado deixa claro que uma piora no cenário pode acelerar o processo de alta nos juros "Podemos colocar no nosso radar um aumento de 1 ponto", afirmou. >
Flávio Aragão, sócio da gestora 051 Capital, analisa que a crise hídrica deve gerar forte inflação no curto prazo. "Também há riscos vindos do setor de serviços que, com o retorno da confiança e aceleração da vacinação, pode voltar a pressionar a inflação", ressaltou. >
Em maio, a inflação acelerou em 0,83%, pressionada principalmente pelo encarecimento da energia elétrica. Esta foi a maior alta para o mês desde 1996. O indicador ficou acima das previsões do mercado de 0,71% e por isso foi considerada uma surpresa inflacionária.
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No acumulado dos 12 meses, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) alcançou 8,06%, bem acima do teto da meta (5,25%). O controle da inflação é a principal atribuição da autoridade monetária. Para isso, o BC define a meta da taxa básica de juros.
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Quando a inflação está alta, o Copom sobe os juros com o objetivo de reduzir o estímulo na atividade econômica, o que diminui o consumo e equilibra os preços. Caso contrário, o BC pode reduzir juros para estimular a economia. Economistas já consideram o estouro do teto da meta no fim de 2021.
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Segundo o relatório Focus desta semana, no qual o BC divulga as projeções do mercado, mesmo após a alta nos juros, os economistas continuaram elevando as expectativas de inflação para 2021, que estão em 5,82%, 0,57 ponto percentual acima do máximo permitido pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). >
A meta fixada é de 3,75%, com tolerância 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. Há um mês, a estimativa do mercado era de 5,15% para este ano. >
Quando a inflação não fica dentro do intervalo determinado pelo CMN para o ano, o presidente do BC precisa escrever uma carta aberta ao presidente do conselho, que é o ministro da Economia, Paulo Guedes, para explicar os motivos. >
O mercado também elevou as expectativas para 2022, ano para o qual o BC considera que a política monetária atual faça mais efeito. Segundo o Focus, os economistas esperam alta de 3,78% nos preços no ano. Há quatro semanas, eles apostavam em 3,70%. >
As projeções do BC para a inflação são de 5,8% para 2021 e 3,5% para 2022. A análise foi feita com a taxa de juros da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de US$ 5,05. De acordo com a pesquisa, a taxa básica deve terminar o ano em 6,25% até o fim de 2021 e se elevar a 6,50% em 2022.
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Nesse cenário, as expectativas para preços administrados são de 9,7% para 2021 e 5,1% para 2022. "Adota-se uma hipótese neutra para a bandeira tarifária de energia elétrica, que se mantém em "vermelha patamar 1" em dezembro de cada ano-calendário", disse o comunicado. >
Em agosto do ano passado a Selic alcançou o menor nível da história, de 2% ao ano, como resposta à crise gerada pela pandemia de Covid-19. A taxa permaneceu no patamar até março deste ano, quando o BC iniciou o ciclo de alta. >
O Copom reafirmou que há fatores de risco para a inflação em ambas as direções: uma redução nos preços de commodities internacionais com a valorização do Real pode segurar os preços e o desequilíbrio fiscal pode puxá-los para cima. >
"Por um lado, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento recente nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário básico", destacou. >
"Por outro lado, novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país", continuou. >
Para o BC, houve melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, mas o risco fiscal segue elevado "criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária". >
O Copom reiterou a importância das reformas econômicas que tramitam no Congresso. "Perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia", colocou o comunicado.
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Em relação à atividade econômica, o BC avalia que "apesar da intensidade da segunda onda da pandemia, os indicadores recentes continuam mostrando evolução mais positiva do que o esperado, implicando revisões relevantes nas projeções de crescimento. Os riscos para a recuperação econômica reduziram-se significativamente". >
No cenário externo, a análise do BC é que os estímulos fiscais e monetários em alguns países desenvolvidos promovem uma forte recuperação da atividade econômica global. >
A indicação, segundo o Comitê, é de que os bancos centrais mantenham os estímulos por muito tempo. "Contudo, a incerteza segue elevada e uma nova rodada de questionamentos dos mercados a respeito dos riscos inflacionários nessas economias pode tornar o ambiente desafiador para países emergentes", disse.
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