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Retomada desigual: os dois lados da crise da Covid para a economia do ES

PIB capixaba cresceu 0,7% no primeiro trimestre de 2021, mas melhora não é sentida da mesma maneira entre os setores; avanço da vacinação traz perspectivas de melhora

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 16/06/2021 às 02h00
Gerente geral da MotoVix Honda, Maurício Devitte Heitzmann,
Maurício Devitte Heitzmann: crescimento de 30% nas vendas de motocicletas. Crédito: Divulgação

Pelo terceiro trimestre seguido, a economia capixaba registrou resultados positivos. Entre janeiro e março deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do Espírito Santo, que considera todas as riquezas produzidas no Estado, avançou 0,7% em relação ao trimestre anterior, segundo dados do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN).

Apesar de comemorado, o avanço não significa que a crise do coronavírus está superada. Embora haja melhora em alguns setores, outros ainda patinam e têm, inclusive, resultado negativo. Ou seja, a reação da economia ainda é desigual entre os segmentos.

No acumulado do ano, o crescimento do PIB capixaba alcança 1%. Um dos setores que mais contribuiu com esse resultado foi o comércio varejista ampliado (11,4%), com destaque para o aumento de 15,1% nas vendas de veículos, motocicletas, partes e peças, e o crescimento de 4,8% do varejo restrito.

BOOM DO DELIVERY IMPULSIONOU VENDA DE MOTOS

Nesse cenário, uma das empresas que estão se dando bem é a MotoVix Honda, que, a despeito da crise, já registra crescimento de 30% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado e planeja inaugurar uma nova unidade no próximo mês. Está prevista a contratação de, pelo menos, 15 profissionais para atuar em Santa Maria de Jetibá.

De acordo com o gerente geral da empresa, Maurício Devitte Heitzmann, o crescimento dos serviços de delivery, impulsionado pela pandemia, é uma das principais razões para a alta procura por motocicletas.

“Mesmo diante de um cenário extremamente difícil imposto pela pandemia, a nossa expectativa para o mercado é de muito otimismo, pois as motocicletas promovem agilidade em se locomover e segurança em não se aglomerar”, explica.

O setor de serviços também registra desempenho positivo no acumulado do ano (0,6%). Entretanto, enquanto as atividades de transporte, serviços auxiliares e correios saltaram 4,4%, a prestação de serviços prestados às famílias, como em salões de beleza, restaurantes, hotéis, entre outros estabelecimentos, recuou 13,6% no período.

BARES E RESTAURANTES AINDA ACUMULAM PREJUÍZOS

O presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares), Rodrigo Vervloet, observa que os prejuízos ainda são sensíveis e que a maioria dos negócios ainda não consegue funcionar plenamente.

“Temos visto a vacinação avançando, mas não há mudanças nas diretrizes. O cenário é ruim. É um setor que já sacrificou muito e continua sofrendo com tantas restrições.”

Empresário do setor de restaurantes, Augusto Barbarioli conta que, em determinado momento, chegou a reduzir o quadro de funcionários pela metade, e mesmo hoje, com um pouco mais brandas, seu estabelecimento ainda não consegue operar dentro da normalidade.

“Toda atividade que depende de contato entre as pessoas foi muito afetada. Algumas áreas de serviço estão retomando, mas entretenimento, bares, restaurante, turismo, tudo isso ainda é muito impactado. Em determinado momento, reduzimos o quadro de pessoal pela metade, e ainda assim fechando no negativo. Hoje, estamos operando com 30%, 40% a menos do que antes da pandemia.”

A rotina, ele conta, não é fácil, mas complementa: “acredito que isso está mais próximo do fim agora. Ficamos na expectativa."

INDÚSTRIA TEVE RETRAÇÃO NO PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2021

Na indústria, a soma de riquezas produzidas diminuiu 4,8%, com destaque para a retração de -26,9% do segmento extrativo, amenizada pela expansão de 11,5% na indústria de transformação.

Também houve oscilações nas transações com outros países. As exportações aumentaram 25,6% no acumulado do ano, e as importações subiram 0,67%. No total, as movimentações ultrapassam a cifra de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 15 bilhões).

SALDO DE VAGAS É POSITIVO MAS DESEMPREGO AINDA PREOCUPA

Houve crescimento ainda no estoque de empregos formais. São cerca de 757,4 mil capixabas com carteira assinada no Estado, com saldo acumulado de 15.905 entre janeiro e março, período em que o setor de serviços liderou as contratações (6.738).

Rodrigo Rocha, 22, barbeiro
Rodrigo Rocha, 22, barbeiro . Crédito: Divulgação

O barbeiro Rodrigo Rocha, 22 anos, é um dos sortudos que conseguiu emprego recentemente em uma barbearia. “Fui contratado pela Dinastia da Barba que estava expandindo os negócios. Em tempos de crise, ver que o negócio estava crescendo me deu uma esperança a mais para o futuro.”

Porém, o número de vagas criadas ainda é insuficiente para reverter o quadro de desemprego, que se agravou no último ano em decorrência da pandemia. No primeiro trimestre de 2021, a taxa de desemprego no Espírito Santo foi de 12,9%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Professor e treinador de futsal, Mozer Alberto Pereira, 37 anos, é uma das 269 mil pessoas que estavam desempregadas nos primeiros três meses deste ano. Já são seis meses fora do mercado de trabalho e o futuro é de incertezas.

“Eu dava aula em uma escola particular no ano passado, e treinava alunos em uma escolinha, que ficou parada praticamente o ano inteiro. Até agora estava me virando com o auxílio-desemprego, mas a última parcela foi paga esse mês e, no próximo, as coisas vão complicar. Se não encontrar uma vaga na área, vou ter que tentar algo informal.”

O percentual de pessoas sem emprego no Estado foi o mais alto para o período desde 2017, embora tenha apresentado recuo em comparação com os últimos três meses de 2020, quando o resultado foi de 13,4%

O coordenador de Estudos Econômicos do IJSN, Antônio Rocha, observa que a retomada das contratações ainda é um ponto sensível, apesar da evidente recuperação do mercado formal. O mercado de trabalho conta ainda com os informais, que representam algo em torno de 40,6% de todos os trabalhadores.

“Essa taxa de desocupação de 12,9% é bem maior quando comparamos com o primeiro trimestre de 2020. Há uma tendência de recuperação, mas situação ainda é desfavorável ao período pré-pandemia. De lá pra cá, tivemos uma redução de cerca de 130 mil postos de trabalho. Mas acreditamos que com o avanço da vacinação, que está permitindo um retorno gradual das atividades, os próximos indicadores serão mais positivos.”

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