Publicado em 3 de março de 2026 às 20:38
BRASÍLIA - Numa derrota para o governo Lula (PT), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiu manter a deliberação da CPI (Comissão Parlamentar do Inquérito) mista do INSS que autorizou a quebra do sigilo bancário e fiscal de um dos filhos do presidente petista, Fábio Luís, conhecido no mundo político como Lulinha.>
"Esse não é um caso de flagrante desrespeito ao regimento ou à Constituição. Não há aqui situação que justifique a excepcional atuação desta presidência para anular a deliberação da CPI", disse Alcolumbre, ao anunciar que não iria intervir para mudar o resultado.>
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), disse aceitar a decisão e não vai recorrer. Segundo ele, a manifestação de Alcolumbre foi importante para esclarecer as regras de votação.>
Randolfe evitou criticar o presidente do Senado em um momento em que o governo tem interesses na Casa, como a indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) e o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center).>
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Ainda segundo o líder, Alcolumbre agiu como magistrado e não com o fígado. Randolfe negou que a decisão contrária ao governo sinalize qualquer crise entre o Senado e o Planalto.>
Randolfe afirmou ainda que o objetivo dos governistas não era blindar Lulinha, mas garantir que outros 25 requerimentos, que podiam atingir nomes da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG), também fossem votados.>
"Não tinha óbice nenhum. Esse sigilo [do Lulinha] já está inclusive à disposição tanto da Polícia Federal, quanto do Ministério Público, quanto da Justiça. A raiz de toda a confusão não foram os 87 requerimentos [aprovados], foi o fato de não terem sido somados outros 25.">
A defesa de Lulinha aguardará a posição do STF a respeito de um pedido feito pela empresária Roberta Luchsinger para barrar a quebra dos seus próprios sigilos aprovados pela CPI para então recorrer à corte. A ideia é pedir ao tribunal que estenda o entendimento ao filho de Lula caso o Supremo suspenda a quebra da empresária.>
Alcolumbre afirmou que foi procurado por muitos parlamentares e que solicitou à Advocacia do Senado e à Secretaria-Geral da Mesa a análise sobre a votação na CPI.>
A votação, que ocorreu na quinta-feira (26), foi seguida de bate-boca e agressões. A quebra de sigilo foi autorizada pela CPI, mas membros governistas questionaram a votação e o resultado proclamado pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG). Eles apresentaram a Alcolumbre um recurso por escrito pedindo a anulação da votação por fraude.>
A votação foi feita de maneira simbólica, ou seja, sem votação nominal de cada parlamentar. Na votação simbólica, aqueles que são favoráveis se mantêm sentados e os contrários se levantam. Para os integrantes da CPI aliados de Lula, o resultado da votação havia sido de 14 votos contra a quebra do sigilo e 7 a favor, de um quórum de 21 participantes.>
Viana, no entanto, contou 7 votos a favor. E, mesmo quando admitiu que poderiam ser 14, disse que, para formar maioria, eram necessários 16, já que o painel de presença registrava 31 parlamentares.>
"Esse número de votos voluntários [14] não seria suficiente para a configuração da maioria. Isso porque o quórum de presença no momento, registrado pela Advocacia e pela Secretaria-Geral da Mesa, mostrado no painel e verificado na votação anterior, era de 31 parlamentares. A maioria com esse quórum, portanto, equivale a 16 parlamentares", disse Alcolumbre.>
"Ainda que se considere que o presidente da CPI se equivocou na contagem daqueles que se levantaram, o número de votantes contrários demonstrado pelos autores não seria suficiente para ganhar a deliberação", continuou o presidente, admitindo que pode ter havido erro na contagem.>
"Esta presidência conclui que a suposta violação das normas regimentais e constitucionais pelo presidente da CPI do INSS não se mostra evidente e inequívoca, razão pela qual, em respeito aos precedentes todos da Casa, não se faz necessário, no presente momento, uma intervenção da presidência da Mesa do Congresso Nacional", concluiu.>
Lulinha é alvo da CPI pelo suposto envolvimento com o lobista Antônio Camilo, conhecido como Careca do INSS, acusado de ter facilitado os descontos indevidos nas aposentadorias de beneficiários do INSS. O lobista teria ordenado um pagamento de R$ 300 mil a uma empresária que é ligada ao filho do presidente.>
A defesa de Lulinha afirma que ele não teve nenhuma participação nas fraudes do INSS e não cometeu nenhum crime.>
A celeuma na CPI envolve diferentes interpretações do regimento do Congresso, com divergências a respeito de quantidade de votos, quórum (quantidade mínima necessária de presentes) e método de votação.>
A sessão tinha 87 requerimentos em pauta, incluindo o de Lulinha. Antes da análise do mérito, os parlamentares decidiram por volta das 11h, em votação nominal, que os pedidos seriam apreciados em bloco. O painel registrou 31 presentes, incluindo o presidente. Nessa votação, participaram os titulares e também suplentes, quando o titular estava ausente.>
Na sequência, por volta das 11h30, Viana anunciou votação simbólica para aprovar os requerimentos (que incluíam pedidos de informação, de quebras de sigilo e de convocações de uma série de pessoas). Depois de contar os parlamentares em pé, declarou haver sete votos contrários e proclamou a aprovação.>
Deputados aliados ao governo Lula contestaram a contagem e afirmam que 14 parlamentares estavam de pé. A reportagem identificou ao menos 12 na transmissão da TV Senado. Essa é a primeira divergência entre os dois lados.>
A segunda divergência diz respeito ao quórum. Os governistas afirmam que havia 21 parlamentares no momento da votação, com resultado de 14 votos contrários a 7 favoráveis. Mas Viana considera 31 presentes, como foi registrado pelo painel na votação anterior, e diz que a maioria precisaria de ao menos 16 votos.>
Nesse ponto, os governistas argumentavam que não fazia sentido considerar que havia 31 presentes, pois esse número diz respeito à votação nominal anterior, que teve a participação de suplentes, enquanto a segunda votação foi simbólica, em que se consideram apenas os presentes naquele instante e votam apenas titulares.>
Alcolumbre afirmou, porém, que, segundo as regras da Casa, a votação simbólica deve levar em conta o total de presentes registrado no painel e não o total de presentes no plenário.>
"Numa votação simbólica, a apuração dos votos resulta de uma apreciação do presidente a respeito do posicionamento do plenário em face do quórum de presença computado no painel. [...] Este sempre foi o procedimento adotado neste Parlamento. É assim neste plenário, é assim no plenário do Congresso Nacional e é assim em todas as comissões.">
Viana disse que não se surpreendeu com a decisão de Alcolumbre porque, desde o primeiro momento, "cumpriu o regimento da casa".>
Ele também afirmou que sabe das pressões políticas geradas desse tipo de decisão, mas que não houve nenhum tipo de posicionamento pessoal, mas técnico.>
"Nós não vamos blindar ninguém e eu, como presidente, vou colocar em votação todo e qualquer requerimento, seja do nome de quem for, parente de gente importante, banqueiro, a CPMI não vai blindar ninguém", afirmou.>
Ele disse, porém, que ainda não há uma decisão de Alcolumbre sobre o requerimento para a prorrogação do grupo. A comissão está prevista para encerrar no dia 28 de março.>
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