A poucos dias do primeiro turno das eleições, tenho visto dois comportamentos recorrentes de investidores. De um lado, quem congela todas as decisões de investimento até conhecer o resultado das urnas; de outro, quem já se posiciona em alguns ativos, apostando nos ganhos que acredita que virão. Parecem opostos, mas eles têm algo em comum: subordinam decisões patrimoniais a um acontecimento que está fora de seu controle.
A cada eleição, a polarização ideológica e inúmeros relatórios e projeções que buscam antecipar fatos futuros aumentam o ruído. O problema não está em acompanhar a política ou compreender seus possíveis efeitos sobre os mercados, mas em transformar uma hipótese eleitoral em premissa para decisões que deveriam sobreviver a diferentes cenários.
Ao fazer um investimento cujo sucesso está atrelado à vitória de um candidato ou então ao postergar decisões financeiras relevantes para depois do pleito (para ver se seu candidato será o vencedor), o investidor adiciona ao seu portfólio uma aleatoriedade que poderia evitar. Afinal, não se pode assegurar o resultado de eleições com antecedência, nem afirmar como o mercado reagirá no dia seguinte e muito menos nos primeiros dias de governo (um nome para um ministério, por exemplo, pode ser mal visto pelo mercado).
Há também uma questão ainda mais relevante para quem investe: a eleição presidencial concentra a atenção, mas não o poder de alterar regras que afetam o patrimônio.
Muito além do ocupante do Palácio do Planalto, o processo legislativo que ocorre no Congresso Nacional tem extrema relevância na esfera patrimonial (a tributação de dividendos, o imposto sobre grandes fortunas e regras de direito civil que podem impactar o planejamento sucessório e patrimonial tratado em holdings são alguns exemplos). Para quem administra ativos, essa distinção não é meramente política e tem consequências jurídicas e financeiras.
A predileção por este ou aquele candidato também costuma resultar na conhecida frase sobre “não investir mais no Brasil”, a depender de determinados resultados das eleições. Mas o ponto que poderia ser considerado, independentemente das urnas, é: por que só investir no Brasil? A diversificação internacional deve preceder a discussão sobre quem lidera o Poder Executivo, sendo uma medida permanente de proteção patrimonial para famílias que preferem deixar parte de seus ativos longe das disputas políticas locais.
E no exterior também se veem os riscos em se misturar preferências políticas com investimentos. A experiência americana oferece uma ilustração útil. Comparações históricas entre o desempenho da bolsa e o partido que ocupa a Casa Branca não produzem uma regra consistente para orientar decisões patrimoniais individuais, e o índice S&P 500 mostra resultados distintos conforme o período e a métrica utilizada, segundo artigo publicado no site da Nasdaq.
E no Brasil, seria possível transformar eleição em fórmula de investimento? Para a XP, não há um padrão comum do mercado local para períodos eleitorais, exceto pela maior volatilidade, e, desde 2002, o retorno do Ibovespa antes e depois das eleições “não parece seguir nenhuma regra”, dependendo mais do mercado global. Isso também é defendido pelo UBS, segundo o qual o fluxo estrangeiro de capital para o Brasil segue uma lógica totalmente alheia ao calendário eleitoral.
Isso não significa que eleições não sejam importantes para os investimentos. Mas, ao mesmo tempo, o patrimônio não deve ser construído como uma aposta sobre quem ocupará o poder.
O ciclo eleitoral passará, levando consigo a empolgação dos vencedores ou a frustração de quem perdeu. Patrimônios que atravessam gerações não dependem da vitória de um candidato. Mais do que tentar prever o imprevisível, é melhor formar uma carteira de investimentos diversificada, cuja estrutura e governança sejam os pilares de perenidade do que se construiu ao longo da vida e apesar dos governos.
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