Atua no mercado financeiro desde 2017. É assessor de investimentos na Valor Investimentos e membro do Ibef/ES. É formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

O Brasil está barato ou apenas em observação?

Investidores enxergam produtividade e vento externo favorável, mas mantêm cautela diante dos cenários fiscal e político

Vitória
Publicado em 09/02/2026 às 11h52

Há momentos em que o mercado financeiro parece um laboratório cheio de reagentes instáveis: um frasco de política, outro de juros, uma pipeta de inteligência artificial e, ao fundo, um béquer borbulhando chamado eleições.

O mundo hoje vive uma contradição curiosa: no geral, governos gastam mais do que podem, empresas investem como se capital fosse infinito e, ainda assim, nada quebra e as bolsas rompem máximas históricas. O segredo provisório atende pelo nome de inteligência artificial. A produtividade sobe, adia ajustes e cria uma sensação de prosperidade sustentada por crédito e expectativa. Não resolve o problema fiscal, apenas compra tempo.

Ao mesmo tempo, o dólar perdeu parte da sua força estrutural, o que muda profundamente o jogo global: diminui a pressão inflacionária e aumenta o apetite por ativos reais, especialmente commodities. Como resultado, países produtores voltam ao radar internacional, entre eles, o Brasil. Essa mudança já repercutiu em nossa Bolsa, com uma alta superior a 30% em seis meses.

 Bolsa brasileira teve alta superior a 30% em seis meses. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
Bolsa brasileira teve alta superior a 30% em seis meses. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT

Mas aqui começa a parte curiosa da história.

Externamente, o país parece um veleiro com vento perfeito. Mas com uma análise mais profunda, é possível identificar um casco com infiltrações. Crescemos com inflação controlada e desemprego baixo, porém sustentados por aumento consistente e relevante de dívida pública e juros elevados. A economia roda, mas ao provável custo de uma compressão futura.

O mercado percebe isso e reage de forma peculiar: não discute mais apenas crescimento ou lucro das empresas. Discute cenário político, boa parte dos preços dos ativos brasileiros depende menos do próximo balanço corporativo e mais do próximo resultado eleitoral.

Isso cria uma assimetria rara.

Se houver confiança em ajuste fiscal, os juros podem cair rápido e a reprecificação da Bolsa tende a ser expressiva (além do que já ocorreu). Se não houver, o movimento pode ser igualmente intenso na direção contrária. Não é uma análise ideológica, é matemática de risco: quando o preço embute esperança, a decepção custa caro; quando embute medo, a surpresa vale muito.

Por isso, o investidor estrangeiro olha para o Brasil com curiosidade científica. Não é exatamente otimismo nem pessimismo. É expectativa de evento.

O país, hoje, não está caro nem barato. Está em observação.

E mercados em observação costumam reagir pouco… até reagirem demais.

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