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Custo de vida

Por que está tão caro ser classe média no Brasil?

Mesmo com inflação menor e mercado de trabalho aquecido, juros altos, dívidas e gastos recorrentes ajudam a explicar a sensação de aperto no orçamento

Publicado em 26 de Agosto de 2026 às 08:13

Públicado em 

26 ago 2026 às 08:13
Felipe Storch

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Felipe Storch Felipe Storch

Há um paradoxo cada vez mais presente na economia brasileira. O mercado de trabalho atravessa um momento relativamente favorável, a renda avançou nos últimos anos e a inflação dá sinais de desaceleração. Ainda assim, quando perguntamos às famílias se a vida ficou mais confortável, é comum ouvir uma resposta bem diferente: o dinheiro parece acabar cada vez mais cedo.


Essa sensação não deve ser simplesmente descartada como pessimismo. Há razões econômicas para que uma família possa estar ganhando mais e, ao mesmo tempo, sentir que seu padrão de vida ficou mais caro. E esse fenômeno parece especialmente relevante para aquilo que costumamos chamar, ainda que de maneira bastante ampla, de classe média

Aluguel, educação, saúde, transporte e crédito disputam espaço no orçamento e ajudam a explicar a sensação de que o dinheiro termina antes do fim do mês
Aluguel, educação, saúde, transporte e crédito disputam espaço no orçamento e ajudam a explicar a sensação de que o dinheiro termina antes do fim do mês Magnific

O primeiro ponto é entender a diferença entre inflação e nível de preços. Quando dizemos que a inflação está diminuindo, não significa que os preços estão voltando ao patamar de alguns anos atrás. Significa apenas que estão aumentando mais lentamente. É como um carro que reduz a velocidade, mas continua andando para frente.


Depois de um longo período de inflação acumulada, essa diferença importa muito. O IPCA acumulava alta de 4,64% em 12 meses até junho deste ano, segundo o IBGE. Uma inflação menor é uma ótima notícia, mas não desfaz os aumentos anteriores. A mensalidade escolar não retorna ao valor de quatro anos atrás, o plano de saúde não volta ao preço anterior, o aluguel não é automaticamente reduzido e a conta do supermercado não retorna ao ponto de partida.


É justamente aí que começa uma parte importante da sensação de perda de poder de compra. Para muitas famílias de classe média, existe uma espécie de "custo fixo de pertencimento". Não basta colocar comida na mesa. O orçamento inclui aluguel ou financiamento imobiliário, condomínio, energia, internet, telefone, escola, plano de saúde, transporte, seguro, cursos e uma série de serviços que foram incorporados ao padrão de vida familiar.


Individualmente, cada despesa pode parecer administrável. O problema aparece quando todas chegam juntas. Uma família pode receber um reajuste salarial de 5% e comemorar o ganho nominal. Mas, se escola, condomínio, plano de saúde, alimentação e outros serviços importantes avançaram de maneira relevante ao longo dos últimos anos, boa parte desse aumento de renda já nasce comprometida. O salário cresceu, mas a parcela efetivamente disponível para consumir, poupar ou melhorar de vida pode ter aumentado muito pouco.


Existe ainda outro componente importante: os juros. Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano. Apesar do início do ciclo de redução, continua sendo uma taxa muito elevada. E a Selic não é apenas uma abstração discutida por economistas. Ela influencia as taxas cobradas em empréstimos e financiamentos e, portanto, chega diretamente ao orçamento das famílias. Isso é especialmente relevante para a classe média porque boa parte de seu padrão de consumo depende de crédito. O imóvel é financiado. O carro muitas vezes também. Bens duráveis são parcelados. Uma emergência pode ir para o cartão. Uma reforma pode exigir empréstimo.


Quando os juros estão altos, não é necessário que o preço do carro ou do imóvel aumente para que eles fiquem mais caros. Basta que aumente o custo de financiá-los. Esse é um tipo de perda de poder de compra que nem sempre aparece claramente quando olhamos apenas para a inflação. Duas famílias com exatamente a mesma renda podem experimentar situações muito diferentes dependendo do volume de dívida que carregam e das taxas de juros que pagam.


Não surpreende, portanto, que o endividamento tenha se tornado uma característica importante do orçamento brasileiro. Em abril deste ano, 80,9% das famílias declaravam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio. Era o maior percentual registrado até então na série histórica da pesquisa. É importante lembrar que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Uma compra parcelada paga em dia também é uma dívida. Mas, quanto maior o comprometimento da renda futura, menor a liberdade financeira da família no presente.

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E aqui surge outro paradoxo interessante. O mercado de trabalho brasileiro está longe de apresentar um cenário ruim. A taxa de desemprego chegou a 5,6% no trimestre encerrado em maio, um dos menores níveis da série histórica para o período. Isso ajuda a sustentar a renda e o consumo. Mesmo assim, ter emprego não significa necessariamente sentir prosperidade.


O que determina a melhora do padrão de vida não é apenas possuir uma ocupação. Importa quanto essa ocupação paga, quanto a renda cresce acima dos preços e, principalmente, quanto conseguimos produzir com nosso trabalho. É nesse ponto que uma discussão aparentemente doméstica se conecta a um dos maiores problemas estruturais da economia brasileira: a baixa produtividade.


No longo prazo, não existe fórmula mágica para aumentar continuamente os salários reais. Uma sociedade consegue consumir mais quando consegue produzir mais valor com os recursos de que dispõe. Países mais produtivos conseguem pagar salários maiores sem transformar todo aumento de renda em aumento de custos e preços. O Brasil, entretanto, convive há décadas com um crescimento muito baixo da produtividade. E isso limita nossa capacidade de transformar crescimento econômico em aumento persistente do poder de compra.


Podemos elevar salários por decreto, ampliar crédito ou estimular temporariamente o consumo. Algumas dessas políticas podem ser justificáveis em determinadas circunstâncias. Mas nenhuma substitui o aumento da produtividade como fonte permanente de crescimento da renda real. E produtividade não significa simplesmente pedir ao trabalhador que trabalhe mais. Significa educação de melhor qualidade, infraestrutura eficiente, empresas mais tecnológicas, maior competição, menos burocracia, segurança jurídica, melhor ambiente de negócios, sistema tributário menos distorcivo e capital humano capaz de utilizar as novas tecnologias. Significa permitir que uma hora de trabalho gere mais valor.


Quando isso acontece, há espaço para salários maiores sem pressionar proporcionalmente os preços. Por isso, talvez a pergunta correta não seja apenas por que o Brasil ficou tão caro. Precisamos perguntar também por que nossa renda demora tanto para acompanhar o padrão de consumo que desejamos.

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A classe média brasileira vive justamente no meio dessa tensão. Ganha o suficiente para ter acesso a uma série de serviços privados, mas frequentemente não ganha o suficiente para utilizá-los sem comprometer uma parcela elevada do orçamento. Tem acesso ao crédito, mas paga caro por ele. Possui patrimônio, mas muitas vezes financiado por décadas. Consegue consumir, mas encontra dificuldade para poupar. O resultado é uma situação curiosa: famílias que, olhando apenas para a renda nominal, parecem estar melhor do que alguns anos atrás, mas que sentem pouca evolução em sua qualidade de vida.


Isso também ajuda a explicar por que as estatísticas econômicas e a percepção das pessoas nem sempre caminham juntas. Uma inflação menor é positiva. Desemprego baixo também. Crescimento da renda é melhor ainda. Mas nenhuma dessas variáveis, isoladamente, consegue responder à pergunta que realmente importa dentro de casa: depois de pagar tudo, quanto sobra?


Talvez essa seja uma das melhores medidas informais da prosperidade de uma família. Não se trata apenas de conseguir pagar as contas. Prosperidade significa possuir margem para escolher. Poder poupar, viajar, trocar de carro, investir na educação dos filhos, comprar uma casa melhor ou simplesmente enfrentar uma emergência sem precisar recorrer ao cartão de crédito.


Quando praticamente toda a renda está previamente comprometida, a família pode até manter um padrão de consumo elevado, mas sua sensação de segurança econômica será pequena. É por isso que o debate sobre custo de vida precisa ir além da inflação do mês. Precisamos discutir juros, endividamento, qualidade dos serviços públicos, concorrência, produtividade e crescimento da renda real.


Controlar a inflação continua sendo indispensável. Reduzir estruturalmente os juros também. Mas, se quisermos que a classe média brasileira deixe de ter a sensação permanente de estar correndo para permanecer no mesmo lugar, será necessário algo mais difícil: fazer o país produzir melhor. No fim das contas, o verdadeiro avanço econômico não acontece quando nosso salário tem mais zeros. Acontece quando cada hora de trabalho permite comprar mais bens, acessar melhores serviços, poupar uma parcela maior da renda e fazer escolhas com menos preocupação. A pergunta, portanto, não é apenas quanto custa ser classe média no Brasil. É por que ainda custa tanto.

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Felipe Storch

Felipe Storch Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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