Enquanto o Brasil acompanhava a Copa do Mundo, uma votação em Brasília passou despercebida, mas mexe com o bolso de todo mundo que tem carro. A Câmara dos Deputados deu o primeiro aval, na Comissão de Constituição e Justiça, para a PEC 3/2026, uma proposta que quer limitar o IPVA a no máximo 1% do valor do veículo em todo o país. Se aprovada, será uma das maiores reduções de imposto sobre o cidadão comum em décadas.
Vamos entender de forma simples. Hoje, cada estado define quanto cobra de IPVA, e a alíquota varia de 1% a 4% sobre o valor do carro na Tabela Fipe. A proposta faz duas coisas: cria um teto nacional de 1% e permite que o cálculo considere o peso do veículo e o quanto ele polui, com desconto para carros menos poluentes. A ideia dos autores é corrigir o que chamam de anomalia: um imposto cobrado todo ano sobre um bem que só perde valor com o tempo.
E aqui vai uma boa notícia para o capixaba: nós já pagamos o menor IPVA do Sudeste. No Espírito Santo, a alíquota para carros de passeio é de 2%, enquanto São Paulo, Rio e Minas cobram até 4%.
O Estado ainda dá 15% de desconto para quem paga à vista, um dos maiores do país, e isenta veículos com mais de 15 anos de fabricação. Mesmo assim, a PEC mudaria nossa realidade: o dono de um carro de R$ 100 mil, que hoje paga cerca de R$ 2 mil por ano, passaria a pagar no máximo R$ 1 mil.
Antes de comemorar, um alerta: o caminho é longo. A proposta ainda precisa passar por uma comissão especial, ser votada duas vezes na Câmara e duas vezes no Senado. E há resistência, porque estados e municípios perderiam dezenas de bilhões em arrecadação por ano, dinheiro que hoje ajuda a pagar saúde, educação e segurança.
Metade do IPVA que você paga fica com o seu município. Ou seja, a conta não desaparece por mágica. Por isso, a primeira lição de finanças já está aqui: nunca conte com um dinheiro que ainda não existe.
Agora, o ponto que quase ninguém percebe. Suponha que a proposta seja aprovada e você, dono daquele carro de R$ 100 mil, economize R$ 1 mil por ano. Se esse valor for engolido pelo consumo do dia a dia, nada muda na sua vida.
Mas, se for investido todo ano, rendendo 5% acima da inflação, essa pequena economia vira R$ 33 mil em 20 anos e R$ 66 mil em 30 anos. Sim, você leu certo: o desconto no imposto do seu carro, bem administrado, paga parte de outro carro no futuro. É o poder dos juros compostos trabalhando a seu favor.
Essa é a diferença entre quem enriquece e quem apenas ganha dinheiro. O carro é um dos maiores consumidores do orçamento da família brasileira: perde valor todos os anos e ainda gera imposto, seguro, combustível e manutenção.
Não há problema em ter carro, ele é ferramenta de trabalho e de vida para milhões de pessoas. O problema é tratá-lo como investimento. E a regra vale para qualquer alívio no bolso, seja desconto de imposto, aumento de salário ou décimo terceiro: dinheiro que sobra sem destino vira consumo; dinheiro que sobra com destino vira patrimônio.
A PEC do IPVA ainda vai gerar muito debate em Brasília, e não sabemos se será aprovada. Mas as lições ficam desde já: valorize a vantagem que o capixaba já tem, pagando um dos menores IPVAs do país; trate o carro como custo, e não como riqueza; e decida hoje qual será o destino de cada real que sobrar amanhã. Quem faz as contas antes decide melhor depois.
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