Desculpe, meu caro leitor. O título acima não se aplica a você, mas é uma triste realidade. Esta coluna é exclusivamente dedicada ao debate racional e informado sobre os desafios da segurança pública e possíveis soluções, mas, a despeito da importância que o assunto tomou, seu alcance será sempre limitado, independentemente da maior ou menor qualidade do conteúdo.
Quando
havia apenas dois ou três canais de televisão e umas poucas rádios que você
podia sintonizar, e os custos de impressão limitavam as opções de jornais nas
bancas, muitos críticos afirmavam que meia dúzia de magnatas da mídia podia
impor à população não apenas determinadas “verdades”, como também quais temas
seriam, ou não, tema da conversa entre as pessoas (agenda setting). Isso
não ocorreria apenas nos jornais, mas também nas telenovelas e até nos
programas infantis.
Por outro lado, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, a quantidade de informação disponível vem crescendo exponencialmente. Então não é de agora que há mais dados do que nosso cérebro é capaz de processar e o ser humano tem que escolher o que é ou não relevante para ele (economia da atenção), mas não o faz de maneira lá muito consciente, e, sim, por impulsos e emoções (racionalidade limitada).
Por fim, havia os que diziam que os grandes meios de comunicação seriam capazes de estruturar narrativas que moldariam a percepção de movimentos sociais, reforçando o papel dos enquadramentos na construção da realidade social.
Em outras palavras, eles selecionariam aspectos da realidade percebida e os tornariam mais salientes em um texto comunicativo (framing), conseguindo promover definições de problemas, interpretações causais, julgamentos morais e recomendações de tratamento.
Agora que qualquer um pode ter voz e vez na internet, esse monopólio teria acabado e não seria mais possível manipular a opinião pública, certo? Ou, pelo menos, isso deveria estar sendo feito pelas grandes plataformas digitais através de seus algoritimos...
Pois bem: após analisar milhares de notícias e posts nos portais e perfis mais relevantes, encontrou-se sempre o mesmo: tudo aquilo que dizia respeito a supostas irregularidades no Banco Master e possível envolvimento de elevadas autoridades públicas teve dez vezes menos visualizações, likes, compartilhamentos e, enfim, impacto ou repercussão do que a vida amorosa e as saliências libidinosas nas festas promovidas por Daniel Vorcaro.
Até o desempenho dos atletas, ao menos durante a Copa, parece ter passado por um escrutínio mais cuidadoso e racional que sua vida pessoal.
É isso: em um caso que deveria abalar a República desde seus alicerces, o eleitor está procurando uma bunda. Encontrando, não quer saber de mais nada. Pode até ser que exista alguém utilizando isso para manipular os impactos do caso Master nas eleições deste ano, mas, com ou sem algoritmo e “grande mídia”, parece que não muda muita coisa. Tem pouca gente querendo falar a sério, informar-se e cobrar. Então, como acho ter ouvido da própria boca de Arnaldo Jabor: “A bunda é a cara e o futuro do Brasil”.
Com coautoria de Marisa Pimenta Rezende Herzog, mestre em sociologia política e doutoranda em segurança pública