Você chegou no supermercado esta semana, olhou para a prateleira e ficou com aquela sensação incômoda: "isso não estava mais barato antes?" O leite subiu. O feijão também. A conta do mês foi maior do que você esperava. Mas, na televisão, o noticiário diz que a inflação desacelerou.
Quem está certo? Você ou o governo?
A resposta honesta é: os dois. E entender por que isso acontece é uma das coisas mais importantes que qualquer pessoa pode aprender sobre dinheiro.
Existem pelo menos duas inflações no Brasil. A que aparece no jornal e a que aparece na sua conta
Primeiro: o que é inflação de verdade?
Vou explicar do jeito mais simples possível. Imagine que você tem uma cesta de compras. Dentro dela estão todas as coisas que você precisa para viver: comida, conta de luz, aluguel, remédio, passagem de ônibus, roupa e internet.
No ano passado, essa cesta custava R$ 100. Neste ano, ela custa R$ 105. Isso significa que os preços subiram 5%. Isso é inflação: a variação no preço de um conjunto de produtos e serviços ao longo do tempo.
Quando a inflação é alta, o dinheiro perde valor. Você trabalha o mesmo tanto, recebe o mesmo salário, mas consegue comprar menos. É como se uma parte do seu salário evaporasse sem você perceber.
Como o governo calcula a inflação oficial?
O indicador mais usado no Brasil se chama IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). É ele que aparece no jornal quando dizem "a inflação foi de X% em abril".
O IBGE, instituto responsável pelo cálculo, faz o seguinte: pesquisa o preço de mais de 400 produtos e serviços em 13 cidades brasileiras, todo mês, para famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. Depois, atribui um peso diferente para cada item, de acordo com o quanto uma família típica gasta com ele.
O problema: família "média" não existe
Aqui está o ponto central desta coluna. O IPCA é calculado para uma família que ganha entre 1 e 40 salários mínimos. É uma faixa enorme. E dentro dela, um professor aposentado que ganha R$ 2.000 e um gerente que ganha R$ 12.000 têm cestas de consumo completamente diferentes.
Quem ganha menos gasta uma fatia muito maior do seu salário em comida, energia e remédio. São exatamente os itens que mais subiram em abril de 2026. Quem ganha mais, por outro lado, gasta proporcionalmente mais em viagens, tecnologia e serviços, que subiram menos ou até caíram.
Repare no gráfico acima. A inflação acumulada em 12 meses para a faixa de renda mais alta foi de 4,95%, maior do que a da faixa mais baixa (3,83%). Como isso é possível?
Porque quem ganha mais consome mais serviços e saúde privada, que subiram bastante. Já quem ganha menos consome mais alimentos in natura, que tiveram alta menor no acumulado anual. Mas no mês de abril especificamente, os itens de baixa renda dispararam. Aí está a armadilha: o número anual esconde o que está acontecendo agora, mês a mês, na mesa de quem tem menos.
As duas inflações: o que cada grupo sente
O quadro acima mostra algo claro: os produtos que mais subiram em abril são exatamente aqueles que compõem a cesta básica de quem ganha menos. Leite, batata, feijão, remédio, energia. Não há sofisticação aí. São as compras de todo o dia.
Então o governo está mentindo?
Não. O IPCA é calculado com rigor técnico e transparência. O problema não é desonestidade. É limitação.
Um único número não consegue representar a realidade de 200 milhões de pessoas com histórias, salários e necessidades completamente diferentes. É como medir a temperatura média de uma sala onde metade das pessoas está com frio e metade com calor. A média dá 22 graus. Mas ninguém está confortável.
Exemplo prático
Imagine dois amigos. João ganha R$ 1.800 e gasta R$ 600 com comida todo mês (33% do salário). Maria ganha R$ 8.000 e gasta R$ 800 com comida (10% do salário). Quando o leite sobe 13,7%, João sente muito mais do que Maria. O número oficial, calculado para uma "família média", não captura a dor do João.
Há ainda outro fator: o IPCA mede variação percentual, não valor absoluto. Quando o leite já estava caro no ano passado e sobe mais 13,7% agora, o efeito acumulado na carteira é devastador para quem compra leite todo dia e não tem reserva financeira para absorver o choque.
É por isso que você pode estar certo ao sentir que as coisas ficaram mais caras, mesmo quando o jornal diz que a inflação caiu. Você não está confuso. Você está medindo com a régua certa: a sua própria vida.
Entender inflação não é assunto de economista. É assunto de quem vai ao mercado, paga conta de luz e compra remédio. Quando você compreende como o número é calculado e quais são as suas limitações, você passa a tomar decisões melhores: sabe quando defender o seu salário, sabe quando renegociar contratos indexados ao IPCA e sabe por que guardar dinheiro na poupança, que rende menos que a inflação real da sua vida, é como andar para trás achando que está parado.
O número oficial importa. Mas o número que importa para você é o da sua cesta, da sua família, do seu bairro. E esse, só você pode calcular.
FONTES
Ipea — Indicador de Inflação por Faixa de Renda (abril/2026) | IBGE — Estrutura de pesos do IPCA | Agência Brasil — "Inflação tem alta para famílias de baixa renda em abril" (21/05/2026)
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