Reeleito com 53,25% no dia 15 de novembro, o prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Victor Coelho, foi um dos maiores vencedores das eleições municipais no Espírito Santo. A cidade não tem segundo turno, mas, mesmo se tivesse, ele teria sido eleito em turno único. As duas pesquisas da série Ibope/Rede Gazeta, publicadas em outubro e novembro, também mostraram que ele está muito bem avaliado pelos cachoeirenses. A retenção do comando da maior cidade da região Sul do Estado também foi a vitória mais expressiva do seu partido, o PSB, sigla do governador Renato Casagrande, em território capixaba nesse pleito.
De quebra, Coelho conseguiu um feito também do ponto de vista ideológico: Cachoeiro é um município muito conservador e um dos mais resistentes redutos do bolsonarismo no Espírito Santo. E foi nesse território povoado de eleitores de Jair Bolsonaro que o prefeito conseguiu a reeleição com números consagradores, mesmo sendo filiado ao Partido Socialista Brasileiro, uma sigla de centro-esquerda, como já observamos aqui. O próprio Coelho, porém, em conversa com a coluna, relativiza essa análise e revela: “Eu votei no Bolsonaro em 2018”.
Por Whatsapp, perguntamos a Coelho qual foi o segredo para essa vitória acachapante de um prefeito do PSB, aliadíssimo de Renato Casagrande, em um reduto tão bolsonarista. Ele ponderou: “É sobre essa análise que eu discordo um pouco. Cachoeiro não é totalmente bolsonarista. Cachoeiro é antipetista. Parou para pensar nisso? Eu votei no Bolsonaro em 2018. Por falta de opção no segundo turno. No primeiro, votei no Amoêdo.”
O banqueiro e empresário João Amoêdo é o maior líder nacional do Novo, partido de direita que defende o liberalismo na economia (grosso modo, a antítese do autêntico pensamento socialista). No primeiro turno da última eleição presidencial, o PSB não apoiou formalmente nenhum candidato, mas vetou “rigorosamente” qualquer tipo de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro, vista pela direção do partido como uma “ameaça à democracia e aos direitos humanos”.
O PSB tinha um acordo avançado de apoio a Ciro Gomes (PDT) – efetivamente apoiado por Renato Casagrande –, mas o arranjo foi atravessado e melado pelo PT: o PSB desistiu da aliança com Ciro em troca da retirada de candidaturas do PT ao governo de alguns Estados, como a de Marília Arraes contra Paulo Câmara (PSB) em Pernambuco.
Já no segundo turno, após a aprovação de uma resolução, o PSB apoiou formalmente a candidatura de Fernando Haddad (PT), defendendo a formação de uma “frente democrática” contra Bolsonaro.
Além do seu voto pessoal em Bolsonaro contra Haddad (e contra a resolução nacional de seu partido) em 2018, Victor Coelho cita outro fato muito relevante para matizar essa questão ideológica, relacionado a seu próprio perfil político: apesar de estar filiado ao PSB – sigla na qual ingressou para concorrer à prefeitura pela primeira vez, em 2016 –, ele mesmo admite não ter absolutamente nenhuma militância partidária.
“Eu também não sou militante partidário. Nunca fui. Para estar na política, é preciso estar em um partido. E fui para o partido onde meu irmão Glauber ‘encerrou’ sua carreira política”, explica o prefeito, em alusão ao irmão mais velho, o então deputado estadual Glauber Coelho, morto em um acidente automobilístico em agosto de 2014 (e tido até então como candidato natural à prefeitura dois anos depois, num vácuo preenchido pelo irmão mais novo). “E tenho em Renato uma amizade muito boa, além da questão partidária”, completa o prefeito, em referência ao governador.
Dito de outro modo, Coelho está, quase circunstancialmente, em um partido de esquerda, mas não é nem se sente, de forma alguma, um político de esquerda. Tampouco está preocupado com isso. Pragmático, o prefeito de Cachoeiro sublinha o que realmente parece importar muito mais para o eleitor e determinar seu voto, principalmente em disputas municipais como a deste ano: “A minha gestão não pegou essa pecha partidária e de ideologia. A população quer resultados. E foi isso que apresentamos nos últimos quatro anos”, afirma ele.
“PT MANCHOU SUA HISTÓRIA”
Coelho agrega ainda outro ângulo muito interessante para esta reflexão, para provar que o eleitorado cachoeirense não é essencialmente “bolsonarista”, mas que desenvolveu uma aversão muito grande ao PT (por culpa do próprio partido) nos últimos anos:
“O eleitorado que votou no Bolsonaro e hoje o idolatra é o mesmo que avaliou Lula positivamente no primeiro mandato, com mais de 80% de aprovação. Só que o PT manchou sua história. Veja as votações aqui em Cachoeiro dos seus candidatos após os escândalos federais.”
Em outras palavras, o eleitorado cachoeirense não é intrinsecamente “de esquerda”, “de direita” nem seguidor de nenhuma ideologia específica. Tanto é que, assim como no resto do país, a população da cidade conferiu a Lula índices de aprovação estratosféricos de aprovação no fim do seu segundo mandato, em 2010 (e com um mensalão no meio do caminho), em um raríssimo fenômeno de popularidade meio obnubilado pelo que surgiu nos anos seguintes: governo ruim de Dilma Rousseff, Lava Jato, esquemas de corrupção revelados, recessão econômica, protestos populares e impeachment.
Então, em 2018, assim como em quase todo o país, o voto do cachoeirense foi muito mais determinado pela rejeição (ou repulsa) ao outro do que propriamente por identificação com o candidato em quem se votou. Foi um voto regido não por amor ao candidato escolhido, mas principalmente por medo e repúdio ao adversário.
No caso específico de Cachoeiro, ainda concorreu um fator importante de coloração local: em seu primeiro mandato, de 2009 a 2012, o prefeito Carlos Casteglione (PT) fez uma administração positiva, tanto é que conseguiu se reeleger. Mas, no segundo mandato, de 2013 a 2016, sua administração terminou muito mal avaliada (coincidindo com a ascensão do antipetismo), o que na certa teve o efeito de aprofundar essa rejeição local ao partido. Aliada à corrupção no plano nacional, a falta de resultados no plano local terminou de torcer o nariz do eleitor cachoeirense contra o partido no qual votara em peso anos antes.
E HOJE? APOIADOR DE BOLSONARO?
Para encerrar, perguntamos a Victor Coelho como ele avalia o governo Bolsonaro, dois anos após ter votado no candidato de extrema direita, segundo ele, por falta de opção. Por acaso o prefeito se considera um apoiador do presidente?
“Bolsonaro é o nosso presidente, eleito democraticamente”, responde Coelho. “Quero que o Brasil cresça e melhore a vida de todos os brasileiros. Torcer para dar errado por questões ideológicas nunca será meu perfil. Infelizmente, na pandemia, não vejo a liderança que ele deveria estar exercendo. Poderia estar sendo destaque na condução de todo o processo, como vimos por exemplo na Nova Zelândia. Mas peço a Deus que lhe dê sabedoria para fazer as mudanças que nosso país precisa para se tornar uma verdadeira potência mundial”.
FINALZINHO
Em tempo, durante um evento em Porto Alegre nesta quinta-feira (10), enquanto os números relativos à pandemia voltam a subir de maneira alarmante no país, Bolsonaro, em seu fantástico mundo paralelo, afirmou que “estamos vivendo um finalzinho de pandemia”.
Sem vacina.