O Ministério Público Federal (MPF) quer a adoção de critérios mais rigorosos na certificação de comunidades quilombolas no Espírito Santo. A proposta é que além da autodeclaração, sejam considerados outros elementos já previstos em legislação para a heteroidentificação, como o reconhecimento por lideranças históricas, consulta a ancestralidade e genealogia comprovadas.
A medida decorre do aumento do número de casos de comunidades requerendo a certificação e de denúncias sobre situações como especulação imobiliária, presença de grileiros nas áreas, disputa pela terra e até de interessados em benefícios governamentais.
As informações estão em uma recomendação à Fundação Cultural Palmares (FCP) — responsável pelas certificações —, encaminhada no último dia 25. O documento cita que a região no extremo Norte do Espírito Santo vem enfrentando dificuldades variadas envolvendo áreas quilombolas. E destaca:
No documento é dito: “Embora a autodeclaração seja o cerne, a FCP pode solicitar documentos e realizar estudos que envolvam a análise de elementos históricos, antropológicos e socioculturais, onde o reconhecimento por outras comunidades ou entidades pode surgir como um dos elementos contextuais”..
Segundo o MPF, há suspeitas em relação a duas comunidades no Norte do Estado, não reconhecidas pelas lideranças quilombolas históricas da região. Uma delas, criada recentemente, é chamada Braço do Rio, localizada em Conceição da Barra, e já obteve a certificação junto à Fundação.
A outra é Córrego do Jacarandá, em São Mateus, que entrou com o pedido de reconhecimento.
A situação, aliada ao cenário da região, levou o MPF a recomendar a FCP que adote, em um prazo de 30 dias, as seguintes medidas:
É dito que, por se tratar de um ato administrativo, a certificação de Braço do Rio pode ser revista, diante das contradições apontadas. A orientação é que seja feito um levantamento de elementos históricos, antropológicos, culturais e visitas técnicas às comunidades.
A coluna entrou em contato com a Fundação Cultural Palmares, mas não obteve retorno. Não foi possível localizar as lideranças das duas comunidades citadas. O espaço segue aberto a suas manifestações.