“As guerras nunca acabam. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda”, escreveu o poeta moçambicano Mia Couto. A frase retrata com precisão a gestação de uma guerra, sempre com justificativas contemporâneas, mas que guarda em seu cerne a mesma matriz: dificuldade em ver o outro como sujeito de direitos, e eleger a disputa o método de relação que construímos com o próximo.
Há pouco mais de um mês, a guerra entre Israel e o povo palestino tem sido preocupação mundial, e cada um reage de acordo com seus próprios interesses. Um conflito que de novo nada possui, e eleva o grau de sofrimento de milhares de pessoas. As guerras são consideradas insanas, mas mantidas e perpetuadas. A chave de compreensão está na essência humana, que Mia Couto nos brinda com uma pista preciosa.
Há uma versão de cunho histórico-religioso para a guerra em questão. Conta-se que 1.800 anos antes de Cristo, Abraão teria saído de Ur dos Caldeus para Canaã, em busca da terra que Deus lhe daria. Essa terra seria hoje Israel, território considerado sagrado.
De acordo com a história, Abraão era casado com Sara, que era estéril, não podendo, portanto, ter filhos. Então, Abraão, já com 86 anos, teria sido orientado por Sara a ter um filho com a sua escrava, Agar. Assim teria sido feito, nascendo Ismael. Anos mais tarde, Abraão já com 99 anos, teria fecundado Sara, que deu à luz Isaac. Com isso, Sara teria sido invadida pelo ciúme, e pedido que Abraão expulsasse Agar e Ismael de casa. Abraão, mesmo contrariado e triste, pois Ismael era seu filho também, teria assim procedido, considerando que teria recebido de Deus a promessa que ambos ficariam bem.
Segundo essa versão, Ismael teria dado origem ao povo árabe, que se tornaria mais tarde o povo muçulmano. Já Isaac teria dado origem ao povo judeu. Estaria aí o primeiro motivo pela guerra entre judeus e muçulmanos, que teriam o mesmo pai, mas um, filho da escrava, e o outro, da esposa. Contudo, numa ordem cronológica, os muçulmanos seriam os primeiros, sendo assim, a briga é para saber qual filho, leia-se povo e religião, teria mais direitos perante a Deus. Qual dos dois povos é o verdadeiro filho de Deus.
Seguindo os relatos teológicos, Deus envia o seu próprio filho, e com o novo testamento conduz o final dessa briga, quando ensina que em Jesus, Deus adotou toda a humanidade como filhos, fazendo de todos nós um só povo, e a ideia de que a terra prometida não se limita às divisas territoriais.
Essa história muitos de nós já sabemos, e outras atravessam essa versão, justificando-se uma guerra em que pessoas são mortas de forma cruel e desumana.
Além disso, grupos políticos representados por potências mundiais, com narrativas de advogar causas humanitárias, alimentam o conflito com objetivos não declarados de aumento de poder político, econômico e bélico.
Fomenta-se a guerra e polariza-se mais uma vez a humanidade, ignorando o ideário de respeito ao outro como sujeito de direitos. Amarram-se na dicotomia entre universalismo e relativismo, esquecendo-se que o que deve estar na centralidade é a dignidade da pessoa humana.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, veio tentar atender a essa necessidade, afirmando a igualdade e a liberdade universais sob a égide da dignidade da pessoa humana, denominador comum de todos os seres humanos. Não obstante, ainda hoje se ampara o tratamento discriminatório e práticas desumanas são levadas a cabo em certos Estados e comunidades religiosas, que alegam a tradição e a religião como fonte legitimadora de sua cosmovisão e das atrocidades cometidas em seu nome.
Nesse cenário, surge o embate entre o universalismo e o relativismo dos direitos humanos, que representa um dos grandes desafios na compreensão de que os direitos humanos são processos de construção de uma humanidade em que a vida esteja sempre em primeiro lugar, não podendo ser atravessada por interesses individuais, disputas de poder, acúmulo de riqueza, controle de território, elevação de títulos, controle de corpos e eliminação do outro.
Precisamos pensar em um pluriversalismo, em que as diferenças sejam a nossa riqueza e produção de potência e complementação do que somos. Não pode a vida humana ficar à mercê de um relativismo cultural que autoriza a barbárie. Lado outro, não podemos chancelar um universalismo ocidental e eurocêntrico, que também contribui para violações de direitos humanos, sob a justificativa de busca pela paz.
Temos que ter a certeza de que a luz no fim do túnel seja a saída para a convivência baseada no respeito à outra e ao outro, independentemente de qualquer condição de existência, e não o farol de um trem vindo em nossa direção sem freio chamado prepotência e arrogância com alto poder destrutivo.