Em um mundo em que a aparência ainda é cartão de visita, o crescimento das cirurgias estéticas é assombroso, se analisarmos o seu perigo a partir de estudos feitos por especialistas do mundo inteiro.
De acordo com o El País, em matéria recente, as cirurgias estéticas aumentaram 215% em oito anos na Espanha, sem a avaliação da saúde mental dos pacientes. Os especialistas sugerem que sejam realizadas avaliações psicológicas antes das intervenções, o que não ocorre.
A Sociedade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética (SECPRE), para chegar a esse percentual, apresentou a realidade espanhola: em 2021, realizaram-se 204.510 intervenções na Espanha, que incluem tratamentos diversos como aumento dos seios, rinoplastia e lipoaspiração. Nos EUA, entre 2020 e 2021, segundo dados da The Aesthetic Society, as intervenções cirúrgicas aumentaram 54%, e 94% são realizadas por mulheres.
O Brasil não se afasta desse crescimento. Em 2019, foi o país que mais realizou cirurgias plásticas no mundo, de acordo com o dado mais recente, e desde 2020 ocupa a segunda posição, atrás apenas dos Estados Unidos, que realizaram 1.485.116 procedimentos cirúrgicos.
O aumento das cirurgias estéticas pode estar relacionado ao aumento de problemas de saúde mental, associados à insatisfação com a imagem, levando a uma pessoa realizar inúmeros procedimentos, muitos dos quais invasivos, na busca da perfeição. Essa tendência, que lota os consultórios e faz crescer um mercado que lucra cada vez mais, tem preocupado profissionais psiquiátricos, além da cirurgia plástica.
É a chamada “dismorfia das selfies”, que consiste na obsessão em se parecer com a foto com filtros cirúrgicos. As redes sociais impõem uma ditadura da perfeição que leva o transtorno dismórfico corporal ao extremo, principalmente entre a juventude, quando solicitam resultados impossíveis em consultas de cirurgia plástica, que acabam por gerar consequentes questões mentais, que transitam entre a insatisfação, depressão e estresse pós-traumático. Um especialista nessa área, Ángel Juárez, recomenda “rejeitar qualquer ato cirúrgico e, em vez disso, sugerir apoio psicológico” se as expectativas não forem realistas.
O fenômeno da dismorfia das selfies gravita entre a estética e a saúde mental, é a insatisfação com o próprio eu, que acaba invisibilizado pelo ideal de perfeição, principalmente entre a juventude que se encontra em uma fase de descobrimento do ser, em todos os aspectos, mas acaba sendo massacrada por um padrão de aparência, que acaba por desfigurar a essência humana, produzindo sofrimento psíquico enorme.
Certa feita, ouvi de um profissional da área: está te incomodando? Corta! Esta frase é de um efeito brutal, e dá a falsa sensação de poder tudo, além de possibilitar que não lidemos com nossa imagem, que diante do espelho é nosso corpo, somos nós, ignorando-se muitas vezes os riscos que estão presentes em qualquer procedimento cirúrgico. Além de consolidar uma lógica de não aceitação de quem somos nós e os processos do tempo em nosso corpo e em nossa vida, que têm uma razão de ser.