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Setembro Amarelo

Como construir pontes que possam reconciliar o sujeito com a vida

Pensar o suicídio hoje, sem preconceito ou medo, é fundamental para reduzirmos os números de ocorrências, que acabam por vitimar não somente aquele que comete o ato, mas todos que estão ao seu entorno

Publicado em 28 de Agosto de 2023 às 00:30

Públicado em 

28 ago 2023 às 00:30
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Mãos dadas para o afeto
Crédito: br.freepik.com
Aproximando-se o mês de setembro, e com ele prenúncio de uma primavera, vemos a inauguração da ampliação da conhecida popularmente Terceira Ponte e a da ciclovia, que passa a compor a arquitetura. Importante rememorar que existem nessa obra dois objetivos específicos: trazer uma nova opção de deslocamento na travessia entre Vitória e Vila Velha para ciclistas e estabelecer uma grade antiescalada para coibir os suicídios.
O número de suicídios, na forma tentada e consumada, vem aumentando nos últimos anos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, as taxas de suicídio são mais altas entre jovens negros de 12 a 28 anos, mesmo que não seja tão divulgado, considerando a estratégia de não incentivo que deve ser adotada, mas que não afasta a necessidade de olharmos para essa questão de forma continua, atenta, científica e afetiva.
As causas do suicídio são multifatoriais. Os diversos tipos de luto, conflitos familiares, opressões, dores da alma, complexidades existenciais e desigualdades socioeconômicas, além das angústias e sentimentos à flor da pele, que são próprios do existir humano, são o intricado de fatores que coexistem no complexo da humanidade e intensificam as aflições humanas.
Pensar o suicídio hoje, sem preconceito ou medo, é fundamental para reduzirmos os números de ocorrências, que acabam por vitimar não somente aquele que comete o ato, mas todos que estão ao seu entorno. Discutir o mal-estar na civilização e os seus reflexos é imprescindível.
Compreender esse corpo que se mata e o tempo de seu acontecimento é olhar com atenção para esse modo de sair da cena e de como acontecem essas construções, por aqueles que não suportam mais permanecerem nelas. Mas também aprender que quem mata e quem morre no suicídio não são necessariamente a mesma pessoa, pois, como nos fundamenta a psicanálise, muitas das vezes se busca matar algo que é ao mesmo tempo o mais estranho e o mais íntimo do sujeito.

Precisa de ajuda?

Acione o Centro de Valorização da Vida (CVV) no telefone 188 ou pelo CVV

Nessa seara, aprender a ler as cartas de morte, não somente como uma despedida ou esclarecimento póstumo de algo que não compreendemos previamente, mas também identificar que o suicídio pode ser um ato singular, mas construído de forma relacional e coletiva, atravessando anos na vida de uma pessoa.
É preciso muito cuidado ao se aproximar da questão do suicídio, assim como o negociador se aproxima no intuito de resgatar uma pessoa. É preciso afetividade para reconectar uma pessoa com a vontade de viver. É preciso um exercício de modéstia, sem espetacularização, sem pretensões de um resultado permanente, pois tudo é provisório, incluindo a vida. Somente assim construiremos pontes que possam reconciliar o sujeito com a vida.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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