Desde 1500, data controversa, mas cravada por alguns historiadores etnocêntricos europeus como o “descobrimento” do Brasil, este país é permeado por enganos, como uma narrativa para esvaziar as questões que nos constitui enquanto sociedade.
Em menos de 24 horas da ocorrência de um triplo homicídio ocorrido na orla nobre do Rio de Janeiro, em que três médicos foram vitimados por 33 disparos de arma de fogo, já houve a declaração de que o crime teria sido por engano, e ainda, os supostos acusados encontrados mortos, numa cruzada ligeira de resolução que soa, no mínimo, estranha.
Antes mesmo das famílias das vítimas decantarem a dor, organizarem os pensamentos e reorganizar a vida diante de uma tragédia, lamentavelmente, já experimentadas por outras famílias, as narrativas de cunho elucidativo se espraiam pelas redes sociais. Narrativas que já conhecemos: apuraremos com rigor, não ficará impune, enviaremos todos os esforços, prestaremos todo apoio às famílias enlutadas e não admitiremos mais que isso aconteça. No entanto, daqui a alguns dias, outro engano acontecerá. Outras vidas serão ceifadas.
O repertório do caso em discussão é robusto e nos convida, mais uma vez, a fazermos uma análise destemida das causas que levaram o Brasil a esse nível de criminalidade e atuação de grupos organizados, e bem organizados, nas barbas do Estado, e em alguns casos funcionando como um Segundo Estado.
É importante atualizarmos a compreensão acerca de facções criminosas e milícias, como as duas categorias que, de forma estruturada e organizada, atuam na sociedade comercializando produtos e serviços, e de certa forma, atendendo a demandas sociais.
Inadequado classificar essas duas categorias como estado paralelo, a partir da compreensão emprestada das ciências exatas que paralelas não se encontram, considerando que o que temos em muitos casos é a manutenção de relações e uso de estrutura estatal para a atuação de muitos desses grupos, seja facção ou milícia.
Negar esse raciocínio é a primeira parte do problema ao nos depararmos com fatos como o ocorrido na madrugada do dia 5 de outubro de 2023 na Barra da Tijuca.
Imperioso também fazer memória da gênese das facções e milícias no Brasil, e ainda, a responsabilidade estatal nessa construção. As relações que esses grupos mantêm com alguns membros de poderes constituídos também não podem estar fora da mesa de análise.
Diariamente, facções e milícias fazem vítimas milhares de pessoas, cerceando a liberdade, explorando economicamente, aterrorizando a paz e eliminando a vida. Ao aplicar seus métodos capitais, julgam e executam com uma celeridade ímpar, faltando tempo para rogar por piedade. Essa é a rotina das periferias, o locus dessa ação. Poucos se importam com isso.
Mas, quando acontece em bairro nobre, tendo como vítimas homens brancos e com capital social estabelecido, chacoalha as estruturas, mas não o suficiente para mudar o sistema.
De engano em engano, vamos nos constituindo e nos acostumando com a vida permeada pelo domínio violento de grupos que ocupam espaços vagos, até a próxima tragédia.