Andei por aí. Cruzei, mais uma vez, a Linha do Equador. Em alguns dias, na Europa, cheguei perto do ambiente de turbulência da geopolítica das guerras. A guerra na Ucrânia. E a guerra na Faixa de Gaza, entre palestinos e judeus.
São os sinais ameaçadores do retorno da sociedade hobbesiana: o homem lobo do homem. Uma volta ao estado natural, no qual o individualismo e o egoísmo do ser humano o compele a viver em guerra entre si. Um estado de guerra permanente. Um retorno à reflexão central da obra "Leviatã", de Thomas Hobbes, publicada em 1651.
A defesa dos ideais da paz nos fóruns internacionais e o espírito cristão dos mandamentos (“amar ao próximo como a si mesmo”) tornaram-se ideais de retóricas derrotadas. Tempos sombrios e fraturados. De perdas dos ideais humanitários.
As conquistas civilizatórias iluministas parecem ameaçadas pelo fantasma hobbesiano do homem lobo do homem. E pelas máximas de pensadores como Maquiavel e Marx: o poder quer o poder. O objetivo número um do poder político é preservar o poder e conquistar mais poder. É o que estamos assistindo na movimentação das lideranças políticas nacionais e globais na (des)concertação da geopolítica global.
Na ONU, a defesa brasileira da tese humanitária da diplomacia foi alvejada pelo veto americano. A motivação central do veto foi a política interna americana. O presidente Joe Biden quer buscar os votos dos judeus e dos pentecostais. Além disto, Biden se movimenta para a reconquista do poder global americano.
A Pax Americana do pós Segunda Guerra Mundial já foi ameaçada pela (des)concertação geopolítica global. China, Rússia e Estados Unidos disputam hegemonias imperiais cada vez mais inatingíveis. O nacionalismo e o populismo se espraiam pelas nações emergentes. Inclusive por Israel , pela Ucrânia e pelos países árabes, por exemplo. A Faixa de Gaza está sob ataque. Paz e consenso? Como?
Aqui e acolá as lideranças políticas promovem a liquefação da política e a regressão da democracia e do consenso. Está distante o ideal de Rousseau do Contrato Social. É guerra permanente, no mundo digital e no mundo real.
A instrumentalização das religiões pela luta política induz a um salve-se quem puder. No lugar do mantra “é a economia, estúpido” grassa agora outro mantra: “é o poder, estúpido”. Pairando sobre todos está a ameaça de que o avanço da guerra não convencional e nuclear coloca incerto o futuro da espécie. A guerra é o exercício da política por outros meios. O problema é que estas duas guerras – Ucrânia e Gaza – estão cada vez mais politizadas.
Salve-se quem puder. Mas não vamos desistir da busca pela paz. Utopia?
Enquanto isso, em Israel, pesquisa recente mostra que 40% dos eleitores do Partido Likud votariam “em outro” agora, e não mais em Benjamin Netanyahu. A sociedade está saturada do ambiente polarizado. Mas o populismo e o nacionalismo se retroalimentam. Em Israel, na Autoridade Palestina, na Ucrânia e na Rússia. Outra vez: é preciso insistir na utopia da paz. Lutar pela paz.