Passado um ano desde a eleição, em segundo turno, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a polarização política que marcou o acirrado pleito, ao que tudo indica, segue praticamente intacta no Brasil. São os dados que apontam as pesquisas mais recentes do Datafolha e da Quaest; dificuldade que, a propósito, tem sido reconhecida por interlocutores próximos ao Palácio do Planalto.
Se outrora o foco desse sectarismo político-ideológico fora o negacionismo antivacina e, depois, a sanha golpista que pedia intervenção militar, agora a polarização política tem influenciado até mesmo as visões do brasileiro sobre a mais recente guerra envolvendo Israel, desta vez iniciada como resposta aos atentados terroristas reivindicados pelo Hamas.
Apesar de o Hamas ser um movimento paramilitar, ultrarradical nos costumes e que não representa a maioria do povo palestino, muitos têm confundido a causa palestina e o povo daquele Estado com o grupo terrorista. Seria o mesmo que tratar todos os brasileiros como petistas ou bolsonaristas, por exemplo. A ânsia pela dualidade na catástrofe da guerra pode alimentar o sentimento de confronto e servir como obstáculo à empatia com as vítimas.
As vidas humanas e a centralidade dos direitos humanos deveriam ser a preocupação imediata. No entanto, com o mais profundo respeito à memória dos inocentes mortos e sequestrados pelo Hamas, fica a impressão de que a dor e a vida dos palestinos não importa.
A visão sobre as vítimas da guerra não pode ser ofuscada por uma lente ideológica. Não se trata de uma guerra entre esquerda e direita, entre capitalismo e socialismo, tampouco entre muçulmanos e judeus. São aspectos que não deveriam se misturar. A propósito, chega a ser leviano utilizar o nazismo como discurso pró-Israel, deixando evidente a necessidade de cuidado com o crescimento de práticas antissemitas e anti-islâmicas.
Noutras palavras, o mérito da guerra não deveria se sobrepor à preocupação com as vítimas, em sua maioria, civis. Entre os mortos, principalmente do lado palestino, muitas crianças e mulheres. A caçada ao Hamas não pode se dar à custa da vida e da privação de recursos básicos e da liberdade do povo palestino.
Até mesmo no ambiente hostil de uma guerra, sobretudo após as mazelas das duas Grandes Guerras Mundiais, devem ser respeitadas regras mínimas traçadas pelo Direito internacional. Enquanto a paz não advém, é, no mínimo, fundamental um cessar-fogo para a entrada de ajuda humanitária e o respeito às convenções internacionais que ditam os limites do enfrentamento. Hospitais e centros humanitários devem ser poupados.