Nesta época do ano, as pessoas ficam ensandecidas. O mês de dezembro é o mês da correria, tudo para ontem, encurtado por dois feriados e ainda recessos, dá a impressão de que as coisas não vão ficar prontas para alguma coisa. Mesmo em um ano tão diferente como o de 2020, o desespero de final de ano foi igual, fazendo com que, mesmo em uma situação pandêmica, em que todos os cuidados deveriam ser redobrados diante do aumento dos casos, as pessoas rompem as barreiras da insanidade e se jogam em uma roleta russa da vida, desafiando o vírus letal.
Corre-se para ajeitar a casa para receber as mesmas pessoas; organizar os armários, as sobras doar para outras pessoas e assim dormir com a consciência tranquila; comprar dezenas de presentes inúteis que vão endividar as finanças e serão trocados quarenta e oito horas depois de entregues; e ainda preparar um exagero de comida que ficará rolando na geladeira por alguns dias. A solidariedade invade o cotidiano das pessoas, como se não fosse necessário ser solidário o ano todo. A sensação que dá é de que o mundo é que vai acabar e não o ano.
O dezembro finaliza um ciclo, sendo o último mês no calendário gregoriano. Proveniente da palavra latina decem (dez), considerando que é o décimo mês do calendário romano, que iniciava em março. É nesse mês que o sol atinge o ponto mais ao sul de seu percurso, sendo o conhecido solstício de inverno, para o Hemisfério Norte, e do verão do Hemisfério Sul.
Excetuando as festas da Igreja Católica, uma alusão ao nascimento de Jesus Cristo, o que a humanidade por meio da linguagem denominou como derradeiro mês do ano provoca na maioria das pessoas um frisson que não podemos desconsiderar. Um desacelerar e acelerar que intriga a sua forma como age na ação humana, capaz de mover a vida econômica, política, social e jurídica de todos os países. É algo inusitado, como se no dia 31 do derradeiro mês do ano fosse dado um reset na vida.
Contudo, a continuidade da vida, com as mesmas questões e complexidades, dá sequência no day after, nos mostrando como damos relevo a significados vazios e desprezamos detalhes cheios de vida. Esperamos para ser em um único mês o que devemos ser o tempo todo.
Precisamos aprender a sorver de cada dia a essência que deve nos alimentar na caminhada. Ou melhor, cada segundo. Uma grande amiga, dia desses, ao conversarmos sobre a sua mãe que estava nos momentos finais de sua passagem por aqui, ao me responder como estava, me disse que estava vivendo um minuto de cada vez. Uma verdadeira liturgia dos minutos, para não deixar escapar nenhum fragmento de vida de uma longa caminhada que chegava ao fim nesta dimensão.
Vivamos tudo o que temos de viver, vamos nos permitir não somente no último mês do ano, mas em todos os dias, todos os minutos, dando chance ao descuido, pois, como diria Guimarães Rosa, “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.