Logo após a vitória de Joe Biden, o presidente do Brasil, ao rebater o posicionamento do presidente eleito dos EUA sobre a Amazônia, disparou que "apenas diplomacia não dá. Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona. Precisa nem usar a pólvora, mas tem que saber que tem. Esse é o mundo”.
A fala de Jair Bolsonaro (que certamente não leu Schopenhauer), além de tensionar a relação entre dois países, apresenta ao mundo uma ineficácia na arte da argumentação e de se travar um debate acerca de projetos, ideias e futuros comuns.
Quanto mais baixo uma pessoa fala, mais argumento de autoridade ela possui, basta observarmos as relações em que estamos inseridos. O tom alto dos discursos revela uma pobreza de argumentos e um desespero no enfrentamento de pensamentos.
Arthur Schopenhauer, em sua "Dialética Erística", apresenta 38 estratagemas de como se vencer um debate, sem precisar ter razão, com a análise de esquemas argumentativos que os filósofos utilizavam para vencer as discussões. Baseado nos Tópicos de Aristóteles, trazia a compreensão sobre a arte de vencer um discurso, por meios ilícitos ou lícitos, mas sempre por meio da linguagem, posturas e entonações.
O rol taxativo do filósofo alemão não dispõe sobre a utilização da pólvora, mas propõe um enfrentamento de ideias por meio do discurso dialógico e observatório. Um exercício de dupla natureza que o ser humano é capaz de realizar, sendo uma das características de uma postura civilizatória.
Nos dias atuais, mais do que nunca, a arte do diálogo se apresenta mais difícil e complexa do que o manuseio de uma arma e a utilização da pólvora. Escutar o outro e saber discordar ou concordar com seus argumentos se tornou um desafio na sociedade. Não escutamos nossos filhos, pais, companheiros, amigos e inimigos (sim, porque às vezes os inimigos têm algo a nos dizer), e da mesma forma desaprendemos a falar com todos eles, reduzindo os diálogos a frases curtas e obrigatórias, quando não em monólogos.
Seguimos em relações que ignoramos o mundo ao redor e somos ignorados, e chamamos isso de preservação da individualidade e intimidade. Esquecemos que a vida é vivida no coletivo relacional. E, quando algo foge ao que não concordamos, o tom sobe, em alguns casos a pólvora é a saída encontrada, produzindo consequências desastrosas para vida de todos.
Nessa compreensão, relemos ao avesso a frase-slogan utilizada pela marca de armas mais famosa do mundo sobre Abraham Lincon tornar os homens livres e Samuel Colt torná-los iguais. Pois, em verdade, a utilização da pólvora é própria de quem não tem argumento de autoridade e que se torna, ao fim e ao cabo, aquilo que tanto seu discurso ataca.
A saída para o momento em que acabar a saliva, é beber mais água para garantir uma pausa nos pensamentos, e dar tempo para as glândulas salivares produzirem mais fluido lubrificante encontrado na boca e garganta, que contém anticorpo capaz de enfrentar a intolerância e a ira.