Existe algo que a sociedade naturalizou, e que precisa ser dito com todas as letras: no Brasil, a maternidade ainda é tratada como responsabilidade quase exclusiva das mulheres.
É justamente nessa lógica que as mães solo são empurradas para uma rotina de sobrecarga constante, enquanto a ausência paterna segue, muitas vezes, tolerada, relativizada ou até invisibilizada.
No Espírito Santo, os números escancaram essa realidade. Quase metade dos lares é chefiada por mulheres, e uma parcela significativa dessas famílias é formada por mães que criam seus filhos sozinhas. Não estamos falando de casos isolados. Estamos falando de um padrão, que revela abandono financeiro, afetivo e, sobretudo, socialmente aceito.
É preciso ter coragem para dizer: a figura do “pai ausente” ainda encontra menos reprovação do que deveria. Enquanto isso, mulheres são cobradas a dar conta de tudo, trabalhar, cuidar, educar e proteger, como se fossem naturalmente responsáveis por suprir todas as ausências.
A legislação brasileira é clara ao estabelecer que a responsabilidade pelos filhos é compartilhada. Mas o que acontece quando essa regra não sai do papel? Quando a pensão não é paga, quando o cuidado não é dividido, quando a presença simplesmente não existe? A resposta tem nome e rosto: mães exaustas.
Exaustas de jornadas duplas e triplas. Exaustas de negociar horários impossíveis. Exaustas de sustentar, sozinhas, não só a casa, mas também o equilíbrio emocional dos filhos. E, muitas vezes, exaustas de justificar o injustificável, a ausência de quem também deveria estar ali.
Os desafios jurídicos aparecem quando a mulher precisa regularizar essa situação, seja para buscar o reconhecimento de paternidade, garantir a pensão alimentícia ou regulamentar a convivência. É um processo que exige informação, acesso à Justiça e perseverança.
E não se trata apenas de uma questão privada, é um problema social. Quando o poder público falha em garantir acesso a creches, quando não há políticas eficazes de apoio à renda e quando a cobrança da pensão alimentícia não funciona como deveria, o recado que se transmite é claro: essas mulheres estão por conta própria.
Responsabilidade parental não é opcional. Paternidade não é figurativa. E presença não pode ser tratada como favor. Enquanto continuarmos tratando a sobrecarga das mães como algo “normal”, estaremos perpetuando uma estrutura desigual, que penaliza mulheres e impacta diretamente o desenvolvimento de crianças.