Ao se aproximar o dia 10 de dezembro, em que celebramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos, percorremos um itinerário de violações que a humanidade suporta como um verdadeiro rastro de dor. A análise dos números da violência, em especial, de homicídios no Estado do Espírito Santo, que antes vinha apresentando um decréscimo, no ano de 2020 se projeta para ser maior que 2019.
De acordo com o site G1, na segunda quinzena de novembro chegamos até a marca de mil assassinatos, número maior do que o registrado durante todo o ano de 2019, que ficou cravado nos 978 homicídios. Aqueles números constituem mil mães que perderam seus filhos.
Diante de um corpo sem vida, além de todos aqueles que sofrem e choram pela perda, existe uma dor que é destacável com toda a deferência, a dor das mães que perdem seus filhos para a violência e em um movimento de inversão dos papéis humanos, quando acabam por enterrar um pedaço de si.
Ao se deparar com o corpo frio de seu filho, a alma dilacerada e enlutada não vê outro jeito do que o transformá-la em luta em busca da busca de justiça, mas mais do que isso, a manutenção de seu filho vivo. O encontro de uma mãe enlutada com o processo que apura a morte de seu filho é na verdade o encontro permanente com seu filho. Não deixar que seja esquecido é a garantia de que ainda vive.
Em alguns casos que acompanhamos, o processo de luta é o responsável por devolver a vida às mulheres que fazem a travessia mais dolorosa de sua vida, e que sentem uma dor imensurável, e ainda, por fazê-la caminhar no tempo deixando para traz o tempo da perda.
Diversos movimentos de lutas de mães de vítimas da violência surgiram no Brasil, sustentando-se sob os pilares da dor, justiça e esperança, formando o tripé da potência de vida que é capaz de reverter o luto em luta. As mães ao se unirem choram, dividem suas histórias, se descobrem fortes e por fim buscam responsabilização daqueles que deram causa ao seu sofrimento, mas mais do que isso, são vetores para uma das causas de deterioração do tecido social, quando fazem ecoar o grito de dor, e reverberam o recado de que a dor é sua, mas a falência é de toda a sociedade.
Ao buscar a reparação e responsabilização, fazendo barulho, elas enquadram o sistema de justiça e segurança a se movimentar e assim institucionalizam a luta por direito e justiça. Diante do seu grito de dor, que muitos podem discordar, criticar, ficar inertes ou fazer calar, mas jamais deixarem de ouvir.
Os movimentos de mães, movimento legitimo na luta pelos Direitos Humanos, que incomodam o sistema que, em muitas das vezes gostaria que as mesmas chorassem baixinho, não deixam que a memória de seus filhos seja sepultada junto de seus corpos.