O cenário das novelas de Manoel Carlos foi palco de uma história que passa ao largo daquelas que estamos acostumados a assistir pela televisão. As tramas e dramas, embalados pela bossa nova, com uma bela fotografia do Rio de Janeiro e com final feliz, em muito se diferenciou do desfecho daquela manhã de sexta-feira, em que uma pessoa em situação de rua adentrou uma padaria, pediu ajuda e morreu à míngua.
O morador de rua, que fazia da área sua casa, mas que não era habitante da novela global. Portador de tuberculose, sempre pedia comida na padaria, era um (des)conhecido. Naquela manhã ele entrou na padaria, não para pedir comida, mas ajuda, pois, estava passando mal. Foi ignorado, morreu sem que seu socorro chegasse. O descaso das pessoas que estavam na padaria foi a materialização da invisibilidade suportada por parte da população que é pobre e tem os direitos fundamentais negados na sua totalidade.
Contudo, isso não foi o bastante. O corpo do morador de rua foi coberto por um saco preto e a vida seguiu. As pessoas continuavam comprando e se alimentando, como se nada tivesse acontecido. Um total descaso com a condição humana de uma pessoa que em vida e em morte foi ignorada. Uma pessoa que não atendia a estética dos enredos novelísticos, classificada como aquela que pode deixar morrer. Uma vida descartável e não passível de luto.
A vida e morte daquele homem de 40 anos, manteve o mesmo padrão: invisível e insignificante. A sua vida de negação ao acesso a direitos foi assim até o dia derradeiro. Seu grito não foi ouvido em nenhum momento, nem mesmo na sua morte.
Ignora-se a vida e a morte das pessoas que são tidas como descartáveis, como um projeto executado de uma sociedade que se preocupa em conjugar o verbo ter, para ser, esquecendo-se que o verbo ser é matriz da essência ontológica do ser humano, e que somente se conquista com o exercício de uma militância dos afetos que precisa ser praticada de forma relacional, contínua e incondicional.
Constata-se que existem vidas que valem menos do que outras, sendo geratriz para o preconceito, discriminação, ameaças, lesões e extermínios, adubando o terreno para brotar graves violações, até a sociedade acostumar-se a assisti-las sem sequer refletir sobre as mesmas, que dirá criticá-las ou até enfrentá-las.
A insensibilidade da humanidade em relação a algumas vidas - pobres, negros, mulheres, LGBTQI+, indígenas - afasta cada vez mais da sua própria humanidade, quando aproxima das condutas de dar de ombros a dor do outro e primar somente com bem-estar individual, ou no máximo do gueto que pertenço. Desaprendemos a pensar enquanto humanidade, que passa pelo coletivo.
Pode ser que já não haja mais tempo de recuperar a humanidade que nós perdemos, e que a essência para a proteção e realização dos direitos humanos, desde 1948, tenha se perdido em meio à ganância e poder que estão na antessala da indiferença. Então, vamos tratar de cuidar para que os direitos humanos no futuro sejam algo diferente e bem mais próximo da condição humana em essência. Comecemos a nos preocupar com que filhos deixaremos para o mundo, ao invés de que mundo deixaremos para os filhos, antes que não tenhamos nem mais filhos, nem mais mundo.