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Comportamento

Chupetas para adultos: por que não devemos julgar quem usa

A ascensão do uso de chupetas por adultos é um interessante espelho da sociedade atual e revela carências, ansiedades, desejos e estratégias individuais de enfrentamento

Publicado em 25 de Agosto de 2025 às 03:00

Públicado em 

25 ago 2025 às 03:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
Nos últimos anos, tendências consideradas inusitadas têm emergido em diferentes partes do mundo, levando o debate público a esferas inesperadas e desafiando antigas convenções sociais. Uma dessas tendências é o uso de chupetas por adultos, prática que, à primeira vista, pode causar estranhamento ou mesmo desconforto, mas revela camadas profundas sobre a sociedade contemporânea, suas ansiedades, desejos e mecanismos de enfrentamento.
Tradicionalmente atrelada ao universo dos bebês, a chupeta é vista como símbolo de conforto, calmaria e transição do seio materno para a autonomia. No entanto, seu ressurgimento entre adultos em contextos festivos, alternativos ou mesmo em ambientes privados suscita discussões sobre novas formas de lidar com o estresse e de expressar identidades.
Em festas noturnas e raves, por exemplo, a presença de adultos com chupetas coloridas tornou-se marca registrada de determinados grupos e subculturas, especialmente a partir dos anos 1990. Inicialmente, o objeto era associado à cultura clubber e à cena eletrônica, funcionando como adereço lúdico que remetia à infância, ao mesmo tempo em que servia para evitar o ranger de dentes provocado por certos estimulantes. Com o tempo, porém, a chupeta transcendeu os limites desses ambientes e passou a ser incorporada em outros contextos, inclusive domésticos e terapêuticos.
Ultrapassando a mera função estética ou recreativa, o uso de chupeta por adultos pode ter motivações variadas. Entre elas, destacam-se redução do estresse e ansiedade, busca por conforto emocional, expressão de identidade e pertencimento, fetichismo e dinâmicas relacionais.
O fenômeno pode ser lido sob a ótica da psicologia como uma forma de regressão, ou seja, retorno simbólico a etapas anteriores do desenvolvimento psicossocial, onde a pessoa busca refúgio em comportamentos infantis diante de pressões emocionais ou situações de insegurança. Porém, diferentemente do que se costuma imaginar, a regressão nem sempre é patológica, pode representar um mecanismo saudável de enfrentamento, funcionando como recurso temporário para restaurar o equilíbrio emocional.
A oralidade, estudada por Freud como uma das fases do desenvolvimento humano, carrega marcas profundas na relação com o mundo. O simples ato de sugar, no caso, a chupeta, pode oferecer sensação de saciedade e tranquilidade, remetendo ao aleitamento materno e ao cuidado primordial. Assim, para alguns adultos, o uso da chupeta é uma resposta adaptativa diante de um mundo cada vez mais exigente e imprevisível.
Adulto usando chupeta
Adulto usando chupeta Crédito: Shutterstock/ AJR_photo
O uso de chupeta por adultos, embora ganhe visibilidade, ainda é cercado por preconceitos e interpretações negativas. Muitas vezes, é visto como sinal de fraqueza, infantilização ou incapacidade de lidar com os desafios da vida adulta. Entretanto, convém analisar a questão de modo mais amplo e empático, levando em conta as transformações culturais e os novos paradigmas de autocuidado.
É importante destacar que práticas consideradas excêntricas, como a chupeta para adultos, frequentemente funcionam como válvulas de escape ou formas legítimas de expressão subjetiva. Em vez de julgar, cabe à sociedade refletir sobre que tipos de sofrimento ou pressão social levam ao crescimento dessas tendências e como criar espaços mais acolhedores à diversidade de respostas diante do sofrimento psíquico.
A ascensão do uso de chupetas por adultos é um interessante espelho da sociedade atual, revela carências, ansiedades, desejos e estratégias individuais de enfrentamento. Longe de ser apenas moda passageira ou motivo de escárnio, o fenômeno convida à reflexão sobre saúde mental.
Em vez de denunciar fraquezas, o uso de chupeta por adultos pode indicar uma busca legítima por conforto em tempos de incerteza e sobrecarga emocional. Cabe à sociedade construir olhares mais compassivos e informados, abrindo espaço para o diálogo e para a aceitação das diversas formas de buscar bem-estar, mesmo quando elas desafiam nossas ideias preestabelecidas sobre maturidade e normalidade.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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