“Qual é seu guarda / Que papo careta / Só tô tirando chinfra / Com a minha lambreta
Qual é seu guarda / Que papo careta / Só tô tirando chinfra / Com a minha lambreta”
(“Patrulha Noturna”, Herbert Vianna)
Com o início da pandemia em março de 2020, houve de imediato uma grande reclusão da população, e assim uma diminuição radical da circulação de pessoas em diversas cidades brasileiras. Lojas fecharam e, infelizmente, muitas delas não voltaram a abrir. O confinamento fez com que as ruas ficassem vazias.
Abril foi o mês mais drástico deste processo, até que, aos poucos, as pessoas começaram a voltar a circular, e novamente vimos veículos transitando pelas vias das cidades. No caso do transporte coletivo, com a necessidade de implantação de protocolo de segurança sanitária para evitar o contágio da Covid-19 que limitou a quantidade de passageiros, reduziu-se a lotação em relação ao período pré-pandemia (bem, até sabemos que em horários de pico, nem sempre o limite de passageiros é respeitado, ficando um monte de gente amontoada).
Quem não pôde trabalhar de modo remoto, não perdeu o emprego, teve que sair de casa e tinha condições para não fazer uso do transporte público, acabou migrando para o veículo particular ou por aplicativo, o que fez aumentar a demanda por este tipo de deslocamento.
Mas teve aqueles que puderam migrar para o trabalho remoto, e então começaram a fazer cada vez mais uso de aplicativos para entrega de comidas. Neste ponto, cabe ainda considerar que muitas cidades só permitiram que restaurantes funcionassem por meio de delivery, sem atendimento no local.
Se, por causa da crise econômica iniciada antes mesmo da pandemia, mas também pelo alongamento da própria pandemia, o desemprego só vem aumentando, cabe considerar um setor que vem recrutando cada vez mais trabalhadores, que é o de entrega, notadamente no caso de ciclistas e motociclistas de entrega de comidas que atuam por meio de aplicativos.
A grande maioria destes ciclistas e motociclistas, porém, são jovens que, como todo jovem, podem ser impávidos, imprudentes e inexperientes.
O resultado desta equação, que inclui pessoas optando por transporte individual que se soma à maior demanda pelos serviços de entrega, é o aumento dos acidentes de trânsito em muitas cidades brasileiras.
No caso dos motociclistas, é fato que eles estão quase sempre desrespeitando a legislação de trânsito, pilotando em alta velocidade, avançando semáforos, fazendo conversões sem sinalizar e de modo imprudente, entre outras infrações. A justificativa, na maioria das vezes, é que eles precisam entregar rapidamente seus pedidos para obterem boa avaliação nos aplicativos e poderem realizar uma maior quantidade de deslocamentos durante o período em atividade, melhorando a remuneração.
Mas a gente vê alguns fazendo zigue-zague, outros empinando suas motos... Se vão causar algum acidente de trânsito, com sequelas para eles próprios e para terceiros, parece pouco importar.
Quando muitos governadores e prefeitos defendiam, ou ainda defendem, o isolamento durante o período pandêmico, é também para aliviar os serviços hospitalares, deixando-os prioritariamente destinados a receber os pacientes com Covid-19. Pessoas circulando, sejam elas pedestres, ciclistas, motoristas ou passageiros, estão sujeitas a acidentes de trânsito que, quando ocorrem, demandam leitos e serviços hospitalares, logo agora que eles se encontram congestionados por causa da pandemia.
Uma vez identificada tal situação, parece não haver, porém, nenhuma medida efetiva que possa reverter este quadro. Não é por falta de legislação que as infrações de trânsito acontecem! Aí costumam falar que falta fiscalização; mas não há fiscalização onipresente, ainda mais com veículos em movimento nas áreas urbanas. E pelo jeito, multas tampouco resolvem o problema. Além do mais, todo motorista, incluindo os motociclistas, conhece a legislação, afinal tiveram que realizar prova para obter o direito de conduzir algum veículo.
Campanhas educativas? Hum, sei não... Talvez para a próxima geração, para as crianças que no futuro serão motoristas. Aliás, alguém acha que aquelas frases (“no trânsito somos todos pedestres”, “no trânsito, o sentido é a vida”, etc.) após as publicidades de veículos são capazes de influenciar o comportamento de alguém?
E a situação se mostra ainda mais preocupante, pois houve até mesmo tentativa do atual governo em facilitar a vida do motorista infrator, algo que foi parcialmente alcançado com o novo Código de Trânsito Brasileiro. Ou seja, tudo indica que os acidentes virarão coisa rotineira em nossas cidades.
Além disso, no caso específico dos motociclistas, considerando um certo motoqueiro que anda por aí fazendo arruaça, falta-lhes quem seja um bom exemplo para eles. E, infelizmente, à medida que um motociclista se acidentar, outro logo dará lugar a ele.
“Tá bem seu guarda, eu me rendo / Eu reconheço que sou marginal / Eu colo nas provas da escola / Eu gosto de ver nu frontal”