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Por que foto com Trump pode ser valiosa para Lula na eleição, segundo analistas

Para especialistas, presidente brasileiro pode se sair bem, ainda que o saldo do encontro seja negativo.

Publicado em 06 de Maio de 2026 às 05:34

BBC News Brasil

Publicado em 

06 mai 2026 às 05:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: Pablo PORCIUNCULA and Andrew CABALLERO-REYNOLDS / AFP via Getty Images
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma ligação telefônica para Donald Trump em outubro do ano passado, o petista tentou quebrar o gelo fazendo uma brincadeira com a idade deles.
Lula estava prestes a completar 80 anos, idade que Trump alcançará no próximo mês de junho.
Na época, o Brasil vivia sob as tarifas impostas pelo governo dos EUA sobre diversos produtos brasileiros e aquela ligação era a primeira vez que eles conversavam sobre o tema.
Segundo uma fonte próxima ao governo afirmou à BBC News Brasil na época, Lula afirmou, com um tom de "deixa disso", que eles não tinham "mais idade" para provocações. E prometeu que visitaria Trump próximo ao 80º aniversário do americano.
Faltando um mês para Trump completar 80 anos, Lula estará na Casa Branca, para uma reunião com o líder americano nesta quinta-feira (7/4).
O encontro ocorre após o novo atrito entre os dois países causado pelo episódio de prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL) nos Estados Unidos.
A situação levou o governo americano a expulsar um agente da Polícia Federal brasileira que atuava como oficial de ligação nos Estados Unidos. Em resposta, o Palácio do Planalto também descredenciou um oficial americano que atuava no Brasil.
No pano de fundo estão também os ataques de Trump ao Pix, a possibilidade de os EUA classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, os investimentos em minerais críticos e as tarifas que ainda permaneceram do "tarifaço".

Pano de fundo eleitoral

Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o encontro deve tangenciar a pauta das terras raras, o acordo que o Brasil pode firmar com a China e o do Mercosul com a União Europeia.
Já para Oliver Stuenkel, pesquisador do Carnegie Endowment e Harvard e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a reunião dos chefes de Estado deve ser sem tensionamentos e "com alguns avanços pontuais na redução de tarifas".
Mas ambos concordam que a ida de Lula à Casa Branca é estratégica para as eleições deste ano.
"A direita tem um imaginário que vincula muito a política externa brasileira à Venezuela, a governos progressistas, à esquerda. E essa estratégia de tentar se desvincular disso é interessante, sobretudo se o encontro significar que existe uma autonomia e soberania brasileira", afirma Bressan.
Em entrevista à repórter Mariana Schreiber, da BBC News Brasil em Brasília, na semana passada, o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), afirmou algo na mesma linha.
"A única forma pela qual Trump poderia reequilibrar esse lugar que os Estados Unidos ocupam na conversa eleitoral é se ele tiver o encontro com o Lula e se esse encontro for bom."
Segundo Stuenkel, além da direita perder a narrativa de que seria mais alinhada a Trump, Lula ainda teria a seu favor a cartada da diplomacia.
"Se for uma reunião bem-sucedida, é claro que o Lula vai usar isso dizendo que consegue trabalhar com qualquer um, enquanto Flávio [Bolsonaro] carece de uma experiência diplomática."
Ainda para ele, mesmo que a reunião seja ruim — o que ele não acredita que será — isso não representará, necessariamente, uma má notícia para o petista.
"Se for uma percepção que o Trump está querendo humilhar Lula, mas Lula demonstrar uma postura firme, isso pode ser utilizado pela campanha do Lula também", diz.
Já Bressan pondera que "pensando em relação a essa estratégia de desvincular a direita dos EUA, ela é interessante para mostrar o quanto o Brasil dialoga com os EUA", diz. "Mas não salva nenhuma eleição".
Imagem BBC Brasil
Primeira reunião entre Trump e Lula foi em outubro na Malásia Crédito: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP VIA GETTY IMAGES
Esta será a segunda vez que o presidente brasileiro viaja aos Estados Unidos em seu terceiro mandato, mas é a primeira vez que ele irá à Casa Branca. O primeiro encontro entre Lula e Trump ocorreu brevemente durante a cúpula da ONU, em Nova York, em setembro do ano passado.
"Tivemos uma química excelente", afirmou Trump, na época, sobre o breve encontro, no auge das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil.
No fim de outubro, eles se reuniram em Kuala Lumpur, na Malásia. O encontro durou cerca de 50 minutos e ocorreu durante a realização da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
A suspensão das tarifas de Trump era o centro daquela primeira reunião. Mas os dois presidentes trataram de outros temas também.
Segundo o chanceler Mauro Vieira afirmou na época, Lula também se ofereceu para ser um "interlocutor" entre EUA e Venezuela.
Naquele momento, Trump pressionava o Caribe, atacando embarcações sob o pretexto de que estavam carregadas com drogas, e ameaçava Nicolás Maduro.
"O presidente Lula levantou o tema e disse que a América Latina e a América do Sul, onde estamos, é uma região de paz. E ele se prontificou a ser um contato, um interlocutor, como já foi no passado, com a Venezuela, para se buscar soluções que sejam mutuamente aceitáveis e corretas entre os dois países", disse o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, após o encontro de outubro.
Ainda assim, a captura de Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, na Venezuela, ocorreu cerca de dois meses depois, em 3 de janeiro. Eles seguem nos EUA, onde enfrentam acusações de tráfico de drogas e outros crimes.
Lula e Maduro estavam distanciados desde que o governo brasileiro não reconheceu formalmente a mais recente reeleição do herdeiro de Hugo Chávez, vista por atores da região e observadores como não legítima.
Assim como a Venezuela, Cuba também está no alvo do presidente americano, que vem pressionando o país por um acordo.
Após a captura de Maduro, Trump interrompeu o fornecimento do petróleo venezuelano e ameaçou com novas tarifas países que oferecessem ajuda a Cuba.
Com apagões sucessivos e escassez de alimentos e medicamentos, a ilha está à beira de um colapso.
Embora o governo Trump não tenha declarado planos claros para Cuba, o presidente dos EUA já afirmou que uma intervenção militar era desnecessária porque o país estava "prestes a cair".

Diálogo ou 'armadilha'?

Embora os dois encontros anteriores entre Lula e Trump tenham sido todos dentro dos padrões usuais da diplomacia, o presidente americano ainda segue imprevisível — duas reuniões de Trump com outros chefes de Estado no ano passado terminaram em bate-boca.
Em março, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi repreendido na frente na imprensa mundial na Casa Branca, depois que Trump e seu vice-presidente, JD Vance, exigiram que ele mostrasse mais "gratidão" pelos anos de apoio dos EUA.
Zelensky também foi acusado de estar "brincando com a Terceira Guerra Mundial" ao não trabalhar mais por um cessar-fogo com a Rússia.
Ele negou a afirmação e os americanos responderam que ele estava sendo "desrespeitoso".
Dois meses depois, Trump recebeu o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, na Casa Branca para uma agenda focada em comércio e cooperação tecnológica.
No entanto, poucos minutos após o início da reunião, Trump fez acusações de que estaria ocorrendo uma "limpeza étnica" contra brancos na África do Sul.
O presidente americano acusou o governo sul-africano de confiscar terras de fazendeiros brancos, promulgar políticas discriminatórias contra brancos e adotar uma política externa antiamericana.
Para Oliver Stuenkel, embora os encontros com o presidente americano nunca sejam "inteiramente previsíveis", o histórico de Lula e Trump é "excelente".
"Nas últimas vezes que se encontraram, eles tiveram reuniões muito produtivas e foi possível conter os problemas e a crise na qual a relação bilateral se encontrava na época", recorda.
"Acho também que o fato de haver um tradutor simultâneo, essa tensão do debate ríspido que vimos com Zelensky e o presidente da África do Sul fica um pouco mais difícil de se repetir".
Em entrevista à BBC News Brasil na semana passada, Casarões lembrou desse episódio, quando começou a se cogitar uma visita de Lula à Casa Branca, após o encontro na ONU, no ano passado.
"Muitos especulavam que essa visita poderia ser uma pegadinha, uma armadilha para o Lula, e que o Trump poderia dispensar ao presidente brasileiro o mesmo tratamento que havia dispensado ao Zelensky, da Ucrânia, e ao Ramaphosa, da África do Sul. Foram reuniões muito constrangedoras, uma humilhação pública generalizada", afirmou ele.
Mas, assim como Stuenkel, Casarões não acha que Lula será colocado na mesma saia-justa, embora isso faça parte do cálculo.
"Da parte do governo brasileiro, acho que isso também é parte do cálculo: 'a gente quer uma foto com o Trump, essa foto seria valiosa, por exemplo, pra neutralizar uma parte importante da narrativa da campanha do Flávio Bolsonaro, segundo a qual, ele é o único político que tem uma boa relação com o presidente americano'. Agora, tudo vai depender do clima que está rolando do lado de lá."

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