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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

É preciso reconhecer que muitas pessoas estão se cansando do Brasil

Com a persistente crise econômica que fincou raízes nos últimos anos, somada à crise social e até mesmo a violência urbana em alguns centros urbanos, a fuga de brasileiros para o exterior vem crescendo ano a ano

Publicado em 03/06/2021 às 02h00
Bandeira do Brasil
Triste Brasil que já não parece tão maravilhoso assim. Crédito: Pixabay

“Aqui é o meu país / Nos seios da minha amada / Nos olhos da perdiz / Na lua, na invernada / Nas trilhas, estradas e veias / Que vão do céu ao coração” ("Meu País", Ivan Lins e Vitor Martins).

Década de 1980. Estudante universitário, jovem ambicioso, cheio de sonhos, planos, ideias, vivendo a vida intensamente como qualquer pessoa daquela idade que tentava aproveitar tudo, ou quase tudo, que podia desfrutar naquela época.

Estava no Rio de Janeiro, cidade onde nasci, cresci e muito curti. Circo Voador na Lapa, jogos no Maracanã, praia de Ipanema, Café Lamas e Cine Paissandu no Flamengo, MAM no Aterro, todos lugares que fizeram parte da formação cultural de alguém ávido por aprender, apreender e fazer. Para completar, o ambiente, as aulas, os debates com colegas e professorado proporcionados pelo curso de Arquitetura e Urbanismo no Fundão (UFRJ).

O clima de abertura política contagiava o país e a cidade. Legião Urbana, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, entre outros, nos davam versos que cantávamos para expressar o sentimento daquela juventude que queria fazer algo diferente aos da geração anterior, mesmo sem saber exatamente o quê.

Se o Paolo Rossi nos tirou da Copa que todos achávamos que iríamos ganhar, o Rock in Rio com Freddy Mercury orquestrando e Rod Stewart saracoteando, deixou saudades, mas também a ideia que algo novo estava por vir. A novidade, infelizmente, foi um “caçador de marajás”.

“Me diz, me diz como ser feliz / Em outro lugar / Me diz, me diz como ser feliz / Em outro lugar”.

Não é fácil decidir sair do seu próprio país para tentar a sorte num outro lugar. É algo muito doloroso. Deixar para trás parentes, amigos e a própria história, referências culturais, lugares de referência que formaram nosso caráter, pra começar tudo de novo.

A princípio imagina-se que todo brasileiro tenta construir sua história por aqui mesmo. Mas aí, em algum momento, principalmente quando se era (é) jovem, ocorre um ímpeto em muitos de nós que nos impele a tentar, partindo para algo meio desconhecido, que não se sabe bem no que vai dar. A virada dos anos 80 para os 90 foi quando, confesso, tentei ir pra fora em duas ocasiões, afinal era alguém recém formado, cheio de gás, mas com a ideia de que aqui as coisas seriam mais difíceis. Ingenuidade? Talvez sim, talvez não...

De volta à terrinha, após os dois breves, porém intensos, períodos vividos no exterior, convém apontar algumas conclusões. 1. Imigrar sem um rigoroso planejamento e com algo já certo é só para aqueles que estão desesperados, fugindo, tal como vemos nos milhares de refugiados que tentam diariamente cruzar a fronteira México/EUA ou desembarcar na costa europeia. 2. O Brasil é um país maravilhoso, cheio de riqueza cultural, tolerante, alegre, com clima e paisagens extraordinários, para que a gente queira deixá-lo, trocando-o por qualquer outro lugar.

No entanto, com a persistente crise econômica que fincou raízes nos últimos anos, somada à crise social e até mesmo a violência urbana em alguns centros urbanos, a fuga de brasileiros para o exterior vem (vinha) crescendo ano a ano.

Ao contrário, porém, do fenômeno ocorrido décadas atrás, simbolizado pelos mineiros de Governador Valadares que rumaram para as regiões de Boston, Miami, entre outras, que lá chegaram com pouca formação e/ou qualificação e em sua maioria com documentos falsos, hoje – ou melhor, até pouco tempo atrás, isto é, antes da pandemia – quem sai são pessoas altamente qualificadas, tais como engenheiros, médicos, pesquisadores, empresários, todos levando conhecimento, experiência e investimentos para outro país.

Infelizmente temos que reconhecer que muitas pessoas estão cansando do Brasil. E o quadro atual, com este governo que não governa, que incita as pessoas a morrerem (quem é que mais provoca aglomerações e desdenha da máscara e das vacinas?), a se matarem (nunca foi tão fácil comprar arma), com péssima imagem no exterior (a destruição do meio ambiente é apenas um dos muitos assuntos que a imprensa e os governos estrangeiros noticiam e criticam com relação ao país) e, por fim, para não nos alongarmos muito, com o aniquilamento das nossas instituições (Inpe, Ibama, IBGE, universidades, etc.), enfim, há motivos mais do que suficientes para que aqueles que tenham condições (rede de contatos, recursos, coragem...) tomem o caminho do aeroporto pensando em não voltar.

Apesar da pandemia, quando nos tornamos párias, para quem quer imigrar regularmente por meio de algum contrato de trabalho, vaga numa instituição de ensino ou recursos para investir, as portas continuarão abertas.

Triste Brasil que, ao contrário do que foi dito antes, já não parece tão maravilhoso assim, afinal vem sofrendo um processo de empobrecimento cultural (muitas vezes patrocinado pelo atual governo) e se mostra cada vez mais intolerante, triste (pelo jeito só sobrou o clima e a paisagens extraordinários), e assim vai criando condições para não acreditarmos num futuro grandioso, pelo menos na nossa geração.

Mas, e quanto aos nossos filhos? Se pudéssemos, o que diríamos a eles?

“Aqui é o meu país / Nos sonhos sem cabimento / Aqui sou um passarinho / Que as penas estão por dentro / Por isso aprendi a cantar / Voar, voar, voar”.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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