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É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade. Escreve quinzenalmente, às segundas

Transição verde e suas repercussões produtivas no mundo

Em relação ao Brasil, há a urgente necessidade de se reavaliar e reconceituar o que seria um novo modelo de desenvolvimento, mais inclusivo do ponto de vista social e ambientalmente sustentável

Publicado em 03/05/2021 às 02h00
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Governos das grandes potências compreendem que as políticas de recuperação de suas economias estão relacionadas à sustentabilidade ambiental. Crédito: Freepik

Em sua edição de número 1075, a Carta do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) trouxe reflexões sobre as oportunidades e os desafios da “transição verde” para o Brasil. Segundo o Iedi, “nossas florestas tropicais, por exemplo, têm influência planetária como reguladoras do clima e do regime de chuvas, o que nos impõe a responsabilidade e a oportunidade de liderar as diretrizes de mitigação do aquecimento global”. Há responsabilidades e oportunidades.

Uma grande discussão sobre sustentabilidade vem sendo feita inclusive no Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), com as participações das elites econômicas do planeta. Em outros momentos históricos, sem que a questão da sustentabilidade fosse o foco de atuação conjunta, a cooperação entre os interesses públicos e privados se mostrou capaz de estruturar processos de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico, quebrando as inércias dos sistemas produtivos.

A temática da sustentabilidade não é nova. Ela vem evoluindo desde a década de 1970 no mundo, influenciando diversos aspectos da produção de bens e serviços em muitos países. Em relação ao Brasil, há a urgente necessidade de se reavaliar e reconceituar o que seria um novo modelo de desenvolvimento, mais inclusivo do ponto de vista social e ambientalmente sustentável. Pressões externas são claras para que o país reduza a insustentabilidade ambiental.

O modelo extrativista e predatório que caracteriza historicamente a organização econômica e a inserção externa da economia brasileira precisa ser novamente discutido. De certa maneira, essa discussão foi feita no passado pelo campo estruturalista, logo após a Segunda Guerra Mundial, ao apontar que o subdesenvolvimento estava entrelaçado com estruturas produtivas extrativas, que inseriam os países da América Latina de forma subordinada na economia mundial.

Aquela discussão desconsiderava os desafios ambientais, um tema que surgiu somente na década de 1970 e que ainda hoje possui grandes dificuldades em se impor como condicionante de organização produtiva.

Muitos países já planejam as suas recuperações pós-pandêmicas a partir de novas bases, com investimentos em tecnologias relacionadas à transição energética. Investimentos em energia renovável e veículos elétricos, por exemplo, representam novas fronteiras de cooperação entre os interesses públicos e privados. Para construir essa transição energética, em 2020 foram realizados gastos planejados de US$ 501,3 bilhões em termos globais, uma alta de 9% em relação ao ano anterior.

De acordo com o Iedi, aproximadamente 75% dos projetos de geração de eletricidade no mundo concluídos em 2019 foram de tecnologias renováveis, como eólica e solar. Em síntese, “entre 2014 e 2019, o crescimento da capacidade instalada de energia eólica e solar no mundo foi equivalente a 70,5 vezes a capacidade instalada de geração da usina de Itaipu, a maior do Brasil”. A China entrou também pesado nesse jogo.

Para o pós-pandemia da Covid-19, os governos das grandes potências compreendem que as políticas de recuperação de suas economias estão relacionadas à sustentabilidade ambiental e à inclusão social, algo que reforça a tendência de apoio a novos mercados e tecnologias limpas. Tudo parece apontar para uma “retomada verde”, a ser realizada ao longo dos próximos tempos, pois as preocupações ambientais dominam a corrida tecnológica em vários setores.

Há exemplos de projetos em diversas partes do mundo, da Europa, passando pela Ásia e chegando aos EUA, sob nova administração. As cifras dos pacotes de estímulos são bilionárias porque há uma influência crescente das questões ambientais em acordos internacionais e tratados comerciais. Não convém olvidar o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabelecem compromissos entre os países signatários para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa.

No caso brasileiro, a emissão de dióxido de carbono (CO2) por unidade de valor adicionado pela indústria subiu entre 2000 e 2017. Tendência contrária ocorreu na média dos países do G20. Portanto, modernizar a estrutura produtiva brasileira a partir de bases tecnológicas mais limpas se faz necessário para uma retomada após a pandemia. Os desafios são muitos para o Brasil. Não enfrentá-los custará caro em termos de perda do dinamismo tecnológico e de prováveis sanções no comércio mundial.

Oportunidades existem para o país, pois recebemos a maior taxa de insolação do mundo e temos um extraordinário potencial eólico, o nosso litoral é extenso e ele concentra a população e as atividades econômicas, facilitando a geração e a transmissão de energia solar ou eólica. Conforme as estimativas apresentadas, uma trajetória sustentável para a economia brasileira poderá resultar em ganhos de R$ 2,8 trilhões para o PIB e gerar 2 milhões de empregos novos até 2030. A transição verde deveria, portanto, se tornar um norte para uma nova estratégia produtiva nacional, com claras repercussões nos meios urbanos.

Como recomendação, o Iedi indicou a necessidade de fortalecimento das políticas ambiental e de ciência, tecnologia e inovação, sendo que devemos “tirar maior proveito do mercado de carbono e do emprego da nossa biodiversidade como fonte de conhecimento e de novos produtos”. O reformismo regressivo brasileiro, desde 2016, não deu atenção a esse tipo de assunto, pois ele objetivou dar sobrevida para uma estrutura produtiva concentradora de renda no topo, em estágio de obsolescência e de baixa competitividade externa.

Quando analisamos as nossas exportações, não é difícil identificar a pressão exercida sobre os recursos naturais brasileiros. O Iedi ponderou ainda que, “se bem coordenado, o processo de transição verde, através das suas diversas dimensões, pode auxiliar no combate ou mesmo reverter problemas de longa data do Brasil, relacionados à infraestrutura insuficiente e obsoleta, à perda de competências industriais, ao limitado desenvolvimento tecnológico, baixo dinamismo da produtividade, má distribuição de renda, entre outros”.

A discussão pública precisa se afastar urgentemente das reformas regressivas e se aproximar mais da necessidade de redirecionamento de rumos, de fundos atualmente destinados a subsídios e desonerações para políticas modernas de promoção de conhecimento e desenvolvimento produtivo a partir da biodiversidade. Recursos também podem vir de uma reforma tributária progressiva sobre rendas e patrimônios, além da intensificação do combate à sonegação fiscal, estimada em aproximadamente 10% do PIB brasileiro pelo Sonegômetro.

Segundo afirmou o economista André Lara Resende, em artigo de opinião publicado no "Valor Econômico", no dia 23 de abril, a “ideologia do fiscalismo, a obsessão em atar as mãos do Estado, inclusive para investir em áreas essenciais, como infraestrutura, saúde, educação, segurança, pesquisa e desenvolvimento, paralisa o país há pelo menos três décadas”. A agenda regressiva desde 2016 não tem dado respostas satisfatórias para a sociedade.

Resende apontou também que “o aumento dos juros é uma transferência direta do Estado para os detentores da dívida, para aqueles a quem a fortuna, vamos dizer assim, deu rendas superiores às suas necessidades e lhes permitiu acumular riqueza em títulos públicos”. A perspectiva de alta dos juros em 2021 deverá agravar os ambientes político e social, aumentando a despesa financeira do governo brasileiro, intensificando o desequilíbrio fiscal e impedindo a articulação da recuperação sustentável da economia.

O empobrecimento brasileiro, a difusão da insegurança alimentar e a devastação do mercado de trabalho demandam respostas diferentes das que temos recebido desde 2016. Não ocorrerá espontaneamente a recuperação da economia brasileira, sob novas bases. Sem o direcionamento político para investimentos verdes, sustentáveis e que sejam inclusivos do ponto de vista social, dificilmente viveremos melhores momentos nos médios e longos prazos.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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