A rivalidade estratégica entre China e Estados Unidos deixou de ser um debate teórico para se tornar o eixo central da política internacional contemporânea. Dois autores estrangeiros nos ajudam a pensar os desafios presentes.
Segundo Kishore Mahbubani, trata‑se de uma competição que moldará o século XXI e exigirá dos demais países uma capacidade rara de leitura estratégica.
Graham Allison, por sua vez, nos alertou para a “armadilha de Tucídides”, na qual a ascensão de uma nova potência tende a gerar temor na potência dominante, aumentando o risco de um conflito. O Brasil está profundamente exposto aos seus efeitos econômicos, tecnológicos e geopolíticos.
A China segue como o principal parceiro comercial do Brasil, sendo que o agronegócio depende fortemente da demanda chinesa. Os Estados Unidos são historicamente o maior investidor estrangeiro no Brasil e o nosso maior parceiro em áreas sensíveis como tecnologia e defesa. Portanto, qualquer deterioração nas relações entre Washington e Pequim atinge o Brasil em alguma medida.
Uma guerra comercial é capaz de demonstrar como decisões tomadas a milhares de quilômetros podem alterar preços, fluxos de investimento e cadeias produtivas. A competição entre as duas potências já começou e deve durar décadas. Como a disputa é de caráter estrutural, defendeu Allison, o Brasil não deveria tratá‑la como um ruído passageiro.
A desaceleração chinesa ou a escalada tarifária pode afetar drasticamente a demanda por commodities brasileiras. O Brasil, que não diversificou e sofisticou a sua pauta exportadora, permanece vulnerável a choques externos. A disputa tecnológica entre China e EUA ameaça fragmentar cadeias produtivas globais.
Pressões estadunidenses por “friend‑shoring”, a realocação de etapas das cadeias de valor para países aliados, podem restringir o acesso do Brasil a tecnologias críticas, como semicondutores, inteligência artificial e equipamentos de telecomunicações. A China exige contrapartidas e previsibilidades para os seus investimentos em infraestrutura, energia e logística.
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O Brasil corre o risco de ficar preso entre as exigências incompatíveis dessas potências. Mahbubani argumentou que os EUA reagiram à ascensão chinesa “com emoção, não estratégia”. O Brasil tem oscilado entre os alinhamentos conjunturais com Washington ou com Pequim, conforme a orientação ideológica de cada governo.
A pressão por posicionamentos mais claros tende a aumentar. A disputa entre China e EUA também é uma disputa por liderança tecnológica. Sem uma estratégia consistente, o Brasil arrisca perder ainda mais autonomia decisória. O Brasil investe pouco em pesquisa e desenvolvimento e corre o risco de ficar permanentemente na periferia tecnológica.
A ausência de uma política nacional robusta de inovação pode transformar o Brasil em mero consumidor de tecnologias alheias, incapaz de competir em setores de alto valor agregado. Há ainda o risco geopolítico, algo que teria impacto direto nos preços de energia, alimentos e transporte marítimo.
Diante do cenário de riscos brevemente descrito, o Brasil precisa abandonar a ilusão de que pode simplesmente “esperar para ver”. A disputa entre China e EUA não é um fenômeno distante e passageiro. Trata-se de uma força que já molda preços, investimentos, cadeias produtivas e decisões políticas.
Necessitamos diversificar parceiros e torna-se indispensável investir estrategicamente em autonomia tecnológica, especialmente em inteligência artificial, semicondutores, defesa cibernética e energia limpa. Precisamos assumir um papel ativo na diplomacia do Sul Global, defendendo um mundo multipolar e cooperativo.
A disputa entre China e Estados Unidos definirá o século XXI. A questão central para o Brasil é se pretendemos ser protagonistas ou apenas uma zona de influência externa. A resposta dependerá da nossa capacidade de agir com visão estratégica, evitar alinhamentos automáticos e construir autonomia em um mundo cada vez mais turbulento.
Em relação ao tempo presente, o documento ‘National Security Strategy of the United States of America’, de 2025, revelou desafios para a América Latina. O documento prevê a retomada do controle estadunidense sobre a região e a ampliação explícita em termos de sua presença militar.
São defendidos acordos desiguais com os países da região, além da previsão de expulsão de empresas estrangeiras que disputam espaço com as corporações estadunidenses. Essa estratégia estadunidense busca ir além da histórica influência ideológica na região, usando a pressão diplomática e até a força militar, caso necessário. Não é difícil perceber como o Brasil será afetado.