No livro “O julgamento de Sócrates” (Companhia de Bolso, 2005), I. F. Stone desmonta a imagem confortável do filósofo como mártir inocente da democracia ateniense. Sócrates não apenas criticava aspectos pontuais da vida política de Atenas; ele desconfiava profundamente da própria ideia de um governo popular.
Essa desconfiança, como Stone demonstra, tinha como alvo a vulnerabilidade da democracia às opiniões e paixões que influenciam a maioria. Para Sócrates, a democracia padecia de um vício estrutural, pois entregava o poder a quem não sabia exercê‑lo.
A assembleia ateniense, espaço de deliberação coletiva, era para ele um palco onde oradores habilidosos manipulavam multidões guiadas por emoções, não por conhecimento. Governar, acreditava o filósofo, deveria ser tarefa de poucos, daqueles que fossem capazes de orientar a cidade com base na razão.
Stone mostra que essa postura, embora filosófica, tinha consequências políticas concretas. Ao deslegitimar a participação popular, Sócrates se aproximava, ainda que involuntariamente, de figuras abertamente antidemocráticas. Em uma Atenas traumatizada por golpes oligárquicos e questões militares, essa associação não era apenas um detalhe.
Há um ponto que, apesar da distância temporal, merece ser trazido ao centro do debate contemporâneo. A democracia não se sustenta apenas na vontade popular; ela depende de instituições capazes de conter, organizar e filtrar as paixões e opiniões coletivas. Sem instituições sólidas, a democracia se torna refém das paixões e opiniões.
O julgamento de Sócrates expõe os limites de uma democracia sem instituições capazes de proteger direitos, garantir estabilidade e impedir que a maioria, movida por medo ou ressentimentos, cometa injustiças. Atenas não tinha instituições fortes, independentes e respeitadas, capazes de transformar a energia da participação popular em decisões estáveis, justas e duradouras.
Em tempos de desinformação, polarização e ataques às instituições, a desconfiança de Sócrates em relação às paixões políticas ganha um caráter menos elitista e mais preventivo. A democracia continua vulnerável ao ruído, às certezas improvisadas, às verdades fabricadas e aos interesses oligárquicos.
A inquietação de Sócrates permanece relevante, afinal, a democracia não é apenas o governo da maioria. Trata-se do governo da maioria dentro de regras, com limites, garantias individuais e salvaguardas coletivas.
As lições do conflito histórico entre Sócrates e Atenas não pertencem somente ao passado. Esse tipo de conflito emerge quando as instituições são enfraquecidas, quando a política se deixa capturar por impulsos imediatos e oligarquias ineptas, quando confundimos opinião com conhecimento e paixão com justiça.
Entre nós, o professor José Murilo de Carvalho se mostrou cético e pessimista sobre o futuro do Brasil nos anos finais de sua vida, especialmente em suas últimas entrevistas. Segundo o historiador, o Brasil carrega heranças estruturais profundas, como a escravidão, o patrimonialismo e a fragilidade da cultura republicana, elementos que continuam moldando a vida política.
Para ele, essas marcas históricas alimentam desigualdades persistentes, limitam a cidadania e dificultam a construção de um projeto nacional inclusivo. O professor enxergava um país marcado pela instabilidade institucional, pela recorrente tutela militar e pela falta de lideranças comprometidas com o fortalecimento democrático.
Em síntese, José Murilo de Carvalho destacou que os nossos impasses contemporâneos não podem ser compreendidos sem o reconhecimento das continuidades históricas que estruturam o Estado, a sociedade e a política nacional.
Qualquer projeto de futuro depende da capacidade de compreender criticamente esse passado e de transformá-lo em uma ordem republicana mais inclusiva e estável.