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Marco Bravo

O sexto sentido da natureza: animais podem nos avisar antes dos desastres?

Em tempos de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e eventos extremos mais frequentes, escutar a natureza deixou de ser romantismo

Publicado em 06 de Julho de 2026 às 04:30

Públicado em 

06 jul 2026 às 04:30
Marco Bravo

Colunista

Marco Bravo

Será que os animais conseguem prever terremotos? Essa pergunta acompanha a humanidade há séculos, atravessa culturas, desperta curiosidade popular e continua provocando a ciência. 


Relatos de cães inquietos, aves em fuga, serpentes deixando tocas, sapos abandonando áreas úmidas, peixes agitados e elefantes se deslocando para regiões mais altas antes de grandes eventos naturais aparecem em diferentes partes do mundo.


A ideia é fascinante: enquanto os seres humanos dependem de instrumentos, sensores, satélites e centros de monitoramento, muitos animais parecem perceber sinais ambientais que escapam completamente aos nossos sentidos. 

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Vibrações sutis no solo, pequenas ondas sísmicas, alterações químicas na água subterrânea, mudanças eletromagnéticas, sons de baixa frequência, variações de pressão atmosférica e até pequenos tremores anteriores ao evento principal podem ser captados por algumas espécies com muito mais sensibilidade do que nós.


Mas é fundamental separar encantamento de comprovação científica. A ciência ainda não afirma que os animais sejam capazes de prever terremotos de forma precisa, indicando data, local e intensidade. 


O que existe é um conjunto de relatos, observações e estudos que mostram comportamentos incomuns antes de alguns eventos naturais. Esses registros são importantes, mas precisam ser analisados com cautela.


Um dos relatos mais antigos vem da Grécia antiga. No ano de 373 a.C., antes de um terremoto destruir a cidade de Helice, há registros históricos de que ratos, cobras, doninhas e centopeias teriam abandonado a região dias antes do desastre. É um exemplo clássico, citado até hoje quando se discute a possibilidade de os animais perceberem alterações ambientais anteriores a terremotos.


Na China, um dos casos mais conhecidos ocorreu em Haicheng, em 1975. Antes de um forte terremoto, foram relatados comportamentos incomuns em animais, incluindo serpentes saindo de seus esconderijos em pleno inverno. 


Esse episódio costuma ser lembrado porque a cidade passou por evacuações antes do terremoto, o que reduziu o número de vítimas. No entanto, especialistas destacam que a decisão também envolveu outros sinais geológicos e uma sequência de tremores menores, não apenas o comportamento animal.


Outro exemplo bastante citado ocorreu na Itália, no terremoto de L’Aquila, em 2009. Pesquisadores observaram que sapos-comuns abandonaram uma área de reprodução a dezenas de quilômetros do epicentro alguns dias antes do tremor principal. 


O comportamento chamou atenção porque os animais deixaram o local em pleno período reprodutivo e só retornaram depois dos abalos mais significativos. O episódio não prova previsão, mas mostra que algumas espécies podem responder a alterações ambientais anteriores ao evento.


Nos Estados Unidos, durante o terremoto da Virgínia, em 2011, funcionários do Zoológico Nacional Smithsonian, em Washington, relataram comportamentos curiosos. Alguns primatas subiram para estruturas mais altas segundos antes do tremor, lêmures emitiram chamados de alarme antes do abalo ser sentido e flamingos se agruparam pouco antes da movimentação. 


Nem todos os animais reagiram da mesma forma, o que reforça a complexidade do tema: pode haver sensibilidade em algumas espécies, mas não um “alarme natural” universal.


Há também relatos associados a tsunamis. No tsunami do Oceano Índico, em 2004, surgiram histórias de elefantes, aves e outros animais se afastando de áreas costeiras antes da chegada das ondas. 

Procura por sobreviventes continua, após terremoto na região de Diyarbakir, no sudeste da Turquia
Procura por sobreviventes após tremor na Turquia em 2023 (MAHMUT BOZARSLAN/AP)

Em alguns locais, comunidades tradicionais também interpretaram sinais do mar e da natureza, como o recuo anormal da água, buscando regiões mais altas. Nesse caso, é possível que parte dos animais tenha percebido vibrações, sons de baixa frequência ou mudanças ambientais provocadas pelo terremoto submarino e pelo deslocamento da água.


Em regiões vulcânicas, pesquisadores também têm investigado esse tipo de comportamento. Estudos modernos com animais monitorados por sensores, como cabras em áreas próximas ao Monte Etna, na Itália, indicam que mudanças no padrão de movimentação podem ocorrer antes de episódios de maior atividade vulcânica. 


Esse tipo de pesquisa abre uma nova possibilidade: em vez de depender apenas de relatos depois do desastre, a ciência começa a monitorar animais em tempo real, com GPS, sensores, câmeras e inteligência artificial.


Esses exemplos mostram que a natureza pode apresentar sinais antes de grandes eventos. No entanto, também revelam o principal desafio científico: transformar observações isoladas em dados confiáveis. 


Para que o comportamento animal seja útil como ferramenta de prevenção, é preciso saber se a reação ocorre sempre antes de um evento, se não ocorre em dias comuns, se pode ser medida, repetida e comparada com dados geológicos.


Muitos comportamentos podem ser confundidos com coincidência. Um cachorro pode latir por muitos motivos. Aves podem voar por alteração de vento, presença de predadores ou mudança de temperatura. Peixes podem se agitar por variações na qualidade da água. Por isso, a ciência exige séries longas de observação, registro contínuo e comparação com sensores ambientais.


Ainda assim, o tema não deve ser descartado. A natureza possui sensores extraordinários. Morcegos usam ecolocalização. Aves migratórias percebem campos magnéticos. Elefantes captam vibrações de baixa frequência. Cães têm olfato altamente desenvolvido. Peixes detectam alterações químicas e elétricas na água. Anfíbios são muito sensíveis a mudanças ambientais. Cada espécie percebe o mundo de uma maneira própria, muitas vezes muito mais refinada do que a nossa.

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A grande lição talvez não seja afirmar que os animais “preveem” terremotos, mas reconhecer que eles percebem o ambiente de forma muito mais ampla. Eles vivem conectados a sinais físicos, químicos e biológicos que a sociedade moderna muitas vezes deixou de observar.


Esse debate também traz uma reflexão ambiental profunda. Quando destruímos habitats, eliminamos espécies, fragmentamos florestas, poluímos rios e reduzimos a biodiversidade, não perdemos apenas animais e plantas. 


Perdemos também formas de leitura da natureza. Cada espécie carrega uma linguagem própria de percepção do ambiente.


No Brasil, embora grandes terremotos sejam menos frequentes, a discussão é extremamente atual. Vivemos em um país marcado por enchentes, deslizamentos, secas prolongadas, ondas de calor, queimadas e eventos extremos cada vez mais intensos. 


Em todos esses casos, a observação da natureza, aliada à ciência, ao monitoramento e à gestão pública, é fundamental para proteger vidas.


A natureza comunica antes de muitos desastres. Rios mudam de cor e volume. Encostas apresentam rachaduras. Animais alteram comportamento. O ar fica mais seco ou mais quente. A vegetação dá sinais de estresse. O problema é que, muitas vezes, nós deixamos de observar esses sinais ou não os transformamos em política pública, prevenção e educação ambiental.


Portanto, os animais podem até não prever terremotos como instrumentos científicos exatos, mas eles nos ensinam algo essencial: o ambiente fala antes do desastre. A ciência precisa medir, a gestão pública precisa planejar e a sociedade precisa aprender a observar melhor.


Em tempos de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e eventos extremos mais frequentes, escutar a natureza deixou de ser romantismo. Tornou-se uma necessidade de sobrevivência.

3 livros indicados

1. Um Mundo Imenso — Ed Yong
Excelente para entender como os animais percebem o mundo por sentidos muito diferentes dos nossos, como olfato, audição, vibração, campos elétricos e magnetismo.

 

2. Introduction to Seismology — Peter M. Shearer
Obra técnica para compreender terremotos, ondas sísmicas e os fundamentos da sismologia. 


3. O Futuro da Vida — Edward O. Wilson
Livro importante sobre biodiversidade, conservação e a necessidade de proteger as espécies e os ecossistemas que sustentam a vida na Terra.


Marco Bravo

Biólogo, mestre em Gestão Ambiental, comentarista de Meio Ambiente e Sustentabilidade da rádio CBN Vitória

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