São muitas as teses que buscam explicar como chegamos até o presente momento histórico. Das crises de representação política nas democracias liberais após a implosão da União Soviética, no final de 1991, às emergências de extremistas de direita no século XXI, muitos textos já foram escritos e publicados no mundo. Aprendemos algo?
A professora Clara Mattei, da New School for Social Research, de Nova York, por exemplo, ponderou que as políticas de austeridade não são neutras para as sociedades. Sua palestra, “Como os economistas inventaram a austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo”, encontra-se disponível no canal New Economic Thinking, do YouTube, desde o dia 12 de outubro. As políticas sociais são afetadas negativamente, gerando impactos adversos na coesão social e o acúmulo de ressentimentos.
Qual foi o resultado prático das políticas de austeridade que imperaram após a crise financeira global de 2008? O sucateamento de serviços públicos e a emergência política da extrema direita na Europa e nas Américas?
Clara Mattei cita o fim da Grande Guerra, em 1918, como um marco dessas políticas. Outros autores, como Edward Carr e Mark Blyth, por exemplo, citaram a tentativa de restabelecer a Belle Époque como uma das grandes ilusões daquele pós-guerra. A busca pela manutenção de desigualdades sociais extremas integra esse quadro através de políticas públicas promotoras da concentração de riquezas e da socialização de prejuízos.
Segundo Mattei, desde então, governos de diferentes países têm enfrentado crises financeiras com políticas econômicas de austeridade. Cortes de remuneração do trabalho, a busca pelo equilíbrio fiscal em contextos recessivos e cortes nos auxílios públicos têm sido utilizados como solução, mesmo com efeitos devastadores sobre o bem-estar social e econômico. Em síntese, o objetivo é preservar o sistema econômico, ou seja, preservar as relações desiguais de classe.
No livro “Crises da democracia”, editado pela Zahar, em 2020, o cientista político Adam Przeworski, professor da Universidade de Nova York, destacou que a desconsolidação democrática não precisa envolver violações constitucionais quando governos reacionários são populares. No Brasil, a degradação institucional está bem representada pelo “orçamento secreto” e os seus escândalos de corrupção que começam a ser revelados.
De acordo com Nouriel Roubini, professor emérito da Universidade de Nova York, em artigo publicado no site Project Syndicate no dia 4 de novembro, “agora estamos entrando em uma nova era que se assemelhará mais às tumultuadas e sombrias décadas entre 1914 e 1945”. Os riscos são muitos e incluem irreversibilidades em termos de mudanças climáticas e guerras cibernéticas. Roubini afirma que o mundo entrou em uma depressão geopolítica.
A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro, pode ser encarada como um marco desse novo tempo. Segundo o professor, “a nova guerra fria sino-americana está ficando mais fria a cada dia”. Tudo poderá esquentar a partir do questionamento do status de Taiwan, que o governo norte-americano já se comprometeu a defender.
Para Roubini, “há também um risco crescente de novas pandemias que seriam piores do que as pragas bíblicas, devido à ligação entre destruição ambiental e doenças zoonóticas”. Além disso, acrescentou o professor, conflitos geopolíticos e preocupações com a segurança nacional estão alimentando guerras comerciais, financeiras e tecnológicas, acelerando o processo de desglobalização. O retorno do protecionismo deixará a economia global, as suas cadeias de suprimentos e os mercados mais fragmentados.
Os fatores de oferta têm desempenhado um papel cada vez mais decisivo nos processos inflacionários, destacou Roubini. A inflação impulsionada pela oferta é estagflacionária e, nesse sentido, ela eleva o risco de que os apertos monetários produzam um pouso econômico forçado, aumentando o desemprego e potencializando recessões.
Pressões inflacionárias estão forçando os bancos centrais a apertar a política monetária, mesmo que estejamos entrando em recessão. Segundo Roubini, “todos devem estar se preparando para o que pode vir a ser lembrado como a grande crise estagflacionária da dívida”. Com níveis de endividamentos altos, o combate à inflação causará uma crise econômica e financeira que será considerada politicamente inaceitável.