A divisão por questões políticas, desde 2018, tem sido objeto de diversas reflexões e discussões, e tem causado um incômodo imenso na sociedade. A reclamação de um país, família e amigos divididos politicamente, e nos hiatos dos processos eleitorais, é recorrente, e procura-se, permanentemente, formas de encurtar essas distâncias e arrefecer essas divisões.
Contudo, vale registrar que o Brasil, desde sempre, convive cotidianamente com outras duas divisões severas: econômica e social. Divisões que compõem a identidade da sociedade brasileira desde 1500, principalmente no que concerne à classe, cor da pele e poder aquisitivo, e que não causam tanto incômodo e nem se vê tantos esforços para abrandá-las.
Nos preocupamos como vão ser os almoços de domingo e a ceia de Natal após as eleições, mas a grande maioria não se importa se um membro da família está passando por necessidades básicas ou endividamento. Se preocupam como será o “clima” nos encontros festivos performáticos familiares de final de semana, mas não se perguntam se a pessoa que se sabe desempregada tem algo para comer na segunda-feira, se a escola do seu filho está paga ou se precisa de algum remédio.
O Brasil sempre foi um país dividido econômica e socialmente, a pergunta que não pode ficar sem resposta é: por que somente agora essa divisão por questões políticas nos incomoda, e a socioeconômica nem tanto?
Essa questão empareda a sociedade enquanto humanidade, quando relativiza valores que deveriam ser muito caros, pois encontra-se na centralidade da dignidade da pessoa humana. O bem-estar e as condições de vida das pessoas que estão em nosso entorno deveriam nos preocupar tanto quanto a sua posição política. As divisões sociais e econômicas são responsáveis por afastar ou aproximar tantas pessoas, mas isso parece não ter importância.
Essa pode ser a questão central que habita o “nervosismo do mercado financeiro” diante de uma fala, coerente, do presidente da República eleito. Alardeia-se a queda da bolsa e o aumento dólar, mas se faz ouvidos moucos ao barulho que ecoa do estômago vazio de 33 milhões de pessoas. Em uma lógica perversa, na qual o lucro deve anteceder a fome.
O grande desafio é equilibrar o investimento, e não gasto, entre as questões sociais e responsabilidade fiscal, primando sempre pelo equilíbrio das economia" class="link" target="_blank">contas públicas. Esse é o desafio dos próximos anos, não somente do governo que terá a tarefa de denotada dificuldade, mas não impossível, principalmente depois de quatro anos de retração de direitos sociais.
Entrementes, essa tarefa, embora seja primordialmente do governo gederal, precisa ter a contribuição de todos os demais setores da sociedade, inclusive do “mercado” (por vezes assume o status de Sujeito), que precisará, se assim sentir necessidade, sentar no divã e tomar um ansiolítico.
Imperativo lembrar que milhões de pessoas durante esse período de trevas que se encerra em 2022, viveram sob tensão, ameaça e medo, e não tiveram recursos para se alimentar, que dirá para comprar um calmante.