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Empregos

Queda na qualidade dos postos de trabalho e perspectivas políticas para o Brasil

Boletim do Dieese mostra que  “a ocupação tem aumentado principalmente em posições que requerem menos escolaridade e que pagam menores salários, o que revela um mercado de trabalho empobrecido e com poucas perspectivas de ascensão"

Publicado em 17 de Outubro de 2022 às 00:05

Públicado em 

17 out 2022 às 00:05
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

O boletim “Emprego em pauta” do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de número 23, de setembro de 2022, revelou um quadro preocupante em termos da qualidade da retomada da economia brasileira. Em síntese, a ocupação cresceu proporcionalmente com mais intensidade entre as pessoas com menor escolaridade entre os segundos trimestres de 2021 e de 2022.
De acordo com o boletim, “a ocupação tem aumentado principalmente em posições que requerem menos escolaridade e que pagam menores salários, o que revela um mercado de trabalho empobrecido e com poucas perspectivas de ascensão para os trabalhadores”. Não convém esquecer que, desde meados de 2020, o processo inflacionário vem empobrecendo brutalmente os trabalhadores brasileiros.
Segundo consta no boletim “entre as ocupações não típicas para profissionais com ensino superior, chama atenção o crescimento de 16,4% no número de balconistas e vendedores de lojas e de 6,8% no de vendedores a domicílio”. Com relação ao rendimento médio real, os ocupados com ensino superior completo foram os que tiveram a maior perda, da ordem de 5,6% entre os segundos trimestres de 2021 e de 2022.
A ocupação cresceu com uma retomada lenta da atividade econômica e essa expansão ocorreu em posições que exigem menos qualificação. Conforme informou o boletim, “o mercado de trabalho vai se precarizando não somente no estabelecimento de vínculos de trabalho sem proteção trabalhista ou social, mas também por meio da geração de empregos pouco complexos e pela perda de rendimentos”.
O esperado prêmio remuneratório pelo aumento médio do nível de escolaridade nos últimos anos não tem sido validado no mercado brasileiro, cuja estrutura produtiva é de baixa sofisticação tecnológica e concentradora de rendas. Não superamos o subdesenvolvimento crônico em 40 anos desde a redemocratização.
Afinal, a nossa democracia falhou ao entregar uma das maiores concentrações de renda do planeta, um sistema institucional que funciona contra os mais pobres, desamparando-os frequentemente, e um sistema político pouco sensível aos anseios da população? Retrocessos nos direitos sociais e nas garantias individuais, sob o disfarce reformista de “modernização do país”, representam uma solução civilizatória aceitável?
Sabemos pela historiografia disponível que a nossa tradicional inserção comercial mundial, de caráter primário-exportador, esteve associada a relações domésticas concentradoras de poder político, de mandonismo local e regional. Modernizações conservadoras ocorreram ao longo do século XX entre nós, porém as estruturas tradicionais de poder, “neocoloniais”, permaneceram praticamente intactas.
Em seu instigante livro “O Extremo-Ocidente”, publicado pela Editora da Universidade de São Paulo, o cientista político francês Alain Rouquié afirmou que “a industrialização tal como se efetuou na América Latina não é de forma alguma fator de independência nacional”. Ela tornou a dependência tecnológica ainda mais estrutural para a região por conta da fragilidade do capital privado nacional.
Desde meados da década de 1980, a desindustrialização prematura se intensificou, refletindo a perda relativa de dinamismo da economia brasileira. O crescimento do setor terciário não foi acompanhado por ganhos de produtividade na economia e a “tradição” primário-exportadora se destacou. Nesse sentido, a dramática insegurança alimentar vivida no presente deveria provocar uma reflexão crítica sobre qual seria a nossa visão comum de progresso e solidariedade nacional.
Infelizmente, o debate eleitoral não ajudou a qualificar a discussão pública. O professor e cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas, publicou um artigo no jornal Valor Econômico, no dia 7 de outubro, sobre a omissão histórica das elites. Destaco do mesmo, para finalizar, o fato de estarmos em “uma nova encruzilhada histórica, cuja repetição provavelmente não dará uma segunda chance à democracia, pelo menos nos moldes liberais que a conhecemos”. Espero ainda que prevaleça a ética da responsabilidade.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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