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Crítica

"Superfície": série de suspense da Apple é um bom quebra-cabeças

"Superfície" acompanha uma mulher com amnésia buscando reconstruir sua vida e em dúvidas sobre a vida que tentam empurrar para ela

Publicado em 09 de Agosto de 2022 às 19:24

Públicado em 

09 ago 2022 às 19:24
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "Superfície", lançada pela AppleTV+ Crédito: Apple/Divulgação
“Superfície” é um grande quebra-cabeças e, como tal, requer um pouco de paciência. A série lançada pela AppleTV+ coloca o espectador na pele de Sophie (Gugu Mbatha-Raw), uma mulher com amnésia que tenta reconstruir sua vida, mas o quanto de sua “nova” vida realmente é verdade e o quanto estão manipulando ela para uma nova realidade?
O que entendemos inicialmente é que Sophie sobreviveu a uma tentativa de suicídio e não se lembra de nada antes do momento em que acordou no hospital; “É como se eu acordasse na vida de outra pessoa”, diz a personagem, que leva uma vida confortável, de luxos, ao lado do marido, James (Oliver Jackson-Cohen). Um dia, porém, um estranho a para na rua e e faz o alerta: “Seu marido não é quem você pensa que é. Você acha que sabe o que aconteceu naquele dia?”. É a faísca necessária para Sophie partir em busca da verdade.
“Superfície” é um thriller que manipula o espectador de forma honesta - sabemos tanto sobre o ocorrido quanto a protagonista e com ela vamos descobrindo pistas a serem seguidas. Assim, cada novidade representa um gancho, um novo rumo para o episódio seguinte e uma nova peça no quebra-cabeças.
A série criada por Veronica West (“Alta Fidelidade”) é inteligente em apostar na confusão inicial para criar a identificação do espectador com a protagonista antes de apresentá-la de fato. À medida que o texto se desenvolve, Sophie passa a se lembrar de fragmentos dos acontecimentos e ganha camadas nem sempre simpáticas a ela, que também já não se reconhece tanto na mulher que era antes de tudo.
Série
Série "Superfície", lançada pela AppleTV+ Crédito: Apple/Divulgação
É interessante assistir a Gugu Mbatha-Raw em diferentes versões, da mulher tranquila e conformada das cenas iniciais, que vive como dizem que ela tem que viver, a pontos em que ela se convence ser algo diferente, quando decide assumir as próprias rédeas, como na cena em que Sophie decide cavalgar. Oliver Jackson-Cohen transita bem entre o marido afetuoso e uma pessoa com indícios de sociopatia; a atuação do ator esbarra na caricatura, mas são exageros necessários à composição do personagem. Já Stephen James, o terceiro integrante do triângulo de protagonistas, recebe um texto limitado para criar seu Baden, tornando-o um personagem pouco interessante cujo arco só funciona em torno de Sophie.
Tecnicamente, “Superfície” é ótima, com os enquadramentos ajudando a transmitir o estado mental de Sophie e fotografando uma São Francisco habitada por grandes empresas e milionários, uma versão muito diferente da habitualmente vista em tela, que normalmente traz a cidade como foco de diversidade e arte. A série é produzida pela Hello Sunshine, empresa de Reese Witherspoon, que também assina “Big Little Lies” e “Little Fires Everywhere”, séries com as quais “Superfície” dialoga esteticamente.
Série
Série "Superfície", lançada pela AppleTV+ Crédito: Apple/Divulgação
Narrativamente, porém, a série tem problemas. A escolha pela confusão é essencial e dá o tom da série, mas o roteiro soluciona alguns conflitos muito rapidamente, sem dar a eles o peso necessário. Da mesma forma, o texto sustenta algumas de suas muitas viradas em coincidências que nem sempre convencem o espectador.
A série demora para engrenar e ironicamente alcança o clímax antes de seu fim, levando Sophie a lugares inesperados. Os episódios finais diminuem o ritmo e buscam colocar o espectador em dúvida acerca de tudo o que viu, com perguntas sem respostas, viradas para surpreender e até um possível gancho para novos episódios. Pode funcionar para alguns, mas certamente frustrará um público que pode se sentir enganado por tudo o que viu. “Superfície”, ao fim, talvez seja uma possível boa minissérie que arrisca diluir sua força em novas temporadas.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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