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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Carter": filme coreano da Netflix é espetáculo de ação absurda

Filmado quase todo em falsos planos-sequência, "Carter" tem coreografias complexas e cenas de ação absurdas que até nos fazem esquecer do fiasco que é o roteiro

Vitória
Publicado em 05/08/2022 às 17h46
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Joo Won em "Carter". Crédito: Netflix

O cineasta coreano Jung Byung-gil ganhou destaque internacional após a exibição de “A Vilã” (2017) em Cannes. Seu filme mais famoso coloca o espectador no ponto de vista de uma assassina em meio a grandes sequências de lutas - uma delas, inclusive, foi praticamente reproduzida no terceiro filme da franquia “John Wick”. Byung-gil parece ter gostado da fama de mestre da ação, pois retorna agora com “Carter”, lançado pela Netflix.

A premissa é simples: um homem (Jon Won) acorda em uma cama ensanguentada, sem memória alguma, e sendo perseguido pela CIA. Dentro de sua cabeça, uma voz passa a orientá-lo e diz a ele seu nome, Carter. A sequência inicial dá o tom do filme, com Carter sendo fugindo dos agentes da CIA, caindo em uma sauna sinistra em que pessoas são torturadas e onde todos parecem ter a missão de matá-lo.

Byung-gil mostra logo de cara a sua competência para filmar ação. Em um grande plano-sequência, Carter enfrenta dezenas (talvez centenas) de inimigos em coreografias divertidas e com muito sangue digital jorrando pela tela. O tom de “Carter” é marcado nos absurdos minutos iniciais, mas essa sequência está longe de ser a coisa mais absurda do filme.

O escopo do texto logo é ampliado, colocando o protagonista em meio ao início de um possível apocalipse zumbi (!!) e de uma trama golpista para acabar com a paz de uma possível Coreia unificada. Mesmo muitas vezes não funcionando bem, as escolhas do roteiro acabam sendo justificadas. A epidemia viral torna possível para Carter exterminar hordas e mais hordas de inimigos genéricos sem correr o risco de uma crítica à violência da trama. Já o confuso arco político possibilita diversas reviravoltas e traições que acabam pouco importando no resultado do filme.

Filme coreano
Filme coreano "Carter", da Netflix. Crédito: Son Ik-chung/Netflix 

“Carter” é um espetáculo de ação o tempo todo, com a sequência seguinte sempre superando a dimensão - e o absurdo - da anterior. Vendido com a grife de filme de ação, “Carter” precisa desse espetáculo para justificar sua existência. As coreografias são ultra criativas e sempre divertidas, com as cenas sempre utilizando os cenários e o ambiente como parte da ação. O falso plano-sequência do filme impressiona e, mesmo que seja fácil perceber cortes e transições, coloca o espectador dentro da ação.

Byung-gil busca fugir do óbvio nessas sequências e transmitir ao espectador o caos do momento; não há embates de um contra um em situações simples, há sempre mais elementos envolvidos. A câmera do diretor não para quieta, sempre passeando entre os envolvidos com agilidade impressionante, uma contribuição do coordenador de artes marciais do filme, Kwon Gwi Deok.

Filme coreano
Filme coreano "Carter", da Netflix. Crédito: Son Ik-chung/Netflix 

Merece destaque também a pouca utilização de computação gráfica nas cenas de luta, com atores e dublês fazendo “o impossível acontecer”, palavras do próprio Byung-gil, um apaixonado pelo mundo dos dublês desde o documentário “Action Boys” (2007), seu primeiro filme, que acompanha cinco aspirantes a dublê na Coreia.

Há, no entanto, problemas na execução de “Carter”. A computação gráfica que quase não é utilizada nas coreografias de ação é utilizada em excesso no sangue digital que jorra pelo filme e na construção de alguns cenários, com o auxílio de telas verdes/azuis. A escalada de absurdos tira a força do filme como obra de ação e o leva quase para um tom de comicidade involuntária.

Potencializado por essa escalada que deixa tudo em segundo plano, o roteiro de “Carter” também é confuso e pouco atrativo, o que é uma pena, pois o texto até levanta possibilidades interessantes sobre a influência do imperialismo dos EUA na Coreia do Sul e questões sobre uma Coreia unificada nunca são exploradas.

Filme coreano
Filme coreano "Carter", da Netflix. Crédito: Son Ik-chung/Netflix 

“Carter”, assim, acaba relegado a alcunha de filme de ação acerebrado, quase um primo coreano dos filmes “Adrenalina”, com Jason Statham. O filme preenche todos os requisitos e todos os clichês para isso - cenas de ação em uma sauna com pessoas nuas, em um trem em movimento e com helicópteros envolvidos, em um avião… Mas nada se iguala ao incrível embate durante uma queda livre.

É ruim ser considerado apenas um filme de ação? Talvez não, talvez seja justamente isso que o Jung Byung-gil buscava, mas a escolha encaixa “Carter” em uma bolha difícil de ser furada, sem construção de universo ou mesmo uma trama atrativa. O filme, ao fim, parece um amontoado de ótimas cenas de ação sustentadas por um fio de história que pouco importa.

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