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Crítica

3ª temporada de "Cobra Kai", na Netflix, quase passa do ponto

Agora produzida pela Netflix, "Cobra Kai" chega a sua terceira temporada transitando perigosamente sobre o limite entre o divertidamente tosco e o exagero

Publicado em 01 de Janeiro de 2021 às 16:08

Públicado em 

01 jan 2021 às 16:08
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "Cobra Kai", da Netflix Crédito: Tina Rowden/Netflix
“Cobra Kai” é um caso curioso. Quando foi lançada como série original do YouTube, em maio de 2018, se tornou a única série produzida pelo serviço a fazer relativo sucesso. Como as outras tramas produzidas por eles não deram certo, o YouTube decidiu parar de produzir séries. Foi aí que a Netflix entrou na jogada.
O popular serviço de streaming já havia tentado adquirir “Cobra Kai” após sua primeira temporada, mas não teve sucesso. Com o cancelamento da série pelo YouTube, a Netflix viu a oportunidade bater à sua porta - ela não só comprou o que já havia sido produzido como já anunciou mais duas temporadas.
A terceira chega à plataforma no primeiro dia de 2021 dando continuidade ao que vimos no último episódio da segunda temporada, que se encerra com uma grande briga na escola e com Miguel (Xolo Maridueña) lutando para sobreviver.
Sem entrar em spoilers, os novos episódios seguem a tendência já apresentada na segunda temporada de tirar um pouco o foco da rivalidade entre Daniel Larusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka) para dar mais protagonismo aos adolescentes e, ainda, reforçar o antagonismo de John Kreese (Martin Kove). É justamente em Kreese que reside o maior problema da terceira temporada de “Cobra Kai”.
Para tentar aproximar o vilão do público, a série se esforça para humanizá-lo e acaba por "justificar" suas atitudes. A humanização de vilões é um recurso que, se mal utilizado, tira deles todo o mistério - nada sabemos, por exemplo, sobre o Coringa de Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, um dos maiores antagonistas do cinema nas últimas décadas.
O arco de Kreese, no entanto, não é capaz de estragar a nova temporada de “Cobra Kai”. A dinâmica entre Daniel e Johnny, mesmo com algumas mudanças, ainda funciona bem. Enquanto o arco de LaRusso é muito dependente de “Karate Kid 2: A Hora da Verdade Continua” (1986), o sensei Lawrence é quem oferece todo o coração da narrativa. Johnny é um cara à moda antiga, mas totalmente em desconstrução, se esforçando para lidar com as mudanças, mas sem resistir a elas. Além disso, a relação dele com Miguel é ótima, rendendo momentos divertidos e afetuosos.
Série
Série "Cobra Kai", da Netflix Crédito: Tina Rowden/Netflix
“Cobra Kai”, desde o início, trazia a intenção de mostrar um outro lado da história do primeiro “Karate Kid” (1984) aproximando Daniel e Johnny, sujeitos muito mais semelhantes do que diferentes, mas que acabaram em lados opostos por obra do acaso. A série também sempre fez um bom papel de ridicularizar o comportamento de seus personagens e até o seu próprio texto. Como é dito em determinado momento da terceira temporada, “eu não consigo entender o fascínio do Vale de San Fernando com o caratê”. Reside neste ponto outro aspecto interessante de “Cobra Kai”, que é tratar o micro como se fosse macro, ou seja, dar grandiosidade a questões menores.
A série tem seus melhores momentos quando brinca com a nostalgia mesmo tendo ciência da ironia de ser justamente ela que mantém a série atrativa. Basta um exercício: se fosse a mesma série, o mesmo texto, com outros personagens não ligados a “Karate Kid”, funcionaria para você? “Cobra Kai” se enche de referências aos filmes da década de 1980, traçando paralelos nada sutis entre as histórias prévias de Johnny e Daniel e as atuais de seus filhos e alunos. É preciso até uma personagem dos primeiros filmes para convencer os dois caratecas de que as histórias que eles contam sobre a juventude podem não ter ocorrido exatamente das formas como ambos relatam.
Série
Série "Cobra Kai", da Netflix Crédito: Tina Rowden/Netflix
Ao transportar o protagonismo para os adolescentes, a série sofre um pouco com a falta de talento e carisma de alguns deles. Tanner Buchaman é péssimo como Robby Keene e torna o personagem, um dos mais complexos da trama, um incômodo; igualmente ruim é a Tory de Peyton List. O resto do elenco adolescente sofre um pouco com as situações do texto e os diálogos criados por ele, como é o caso de Falcão (Jacob Bertrand), que tem bastante destaque na temporada mesmo sem nunca ser bem desenvolvido. Os pontos positivos ficam para Demetri (Gianni Decenzo), um ótimo e involuntário alívio cômico para uma série que intencionalmente se leva a sério demais, e Miguel, que parece ter recuperado o carisma após os dias de vilão caricato na segunda temporada.
“Cobra Kai” tem a característica peculiar de caminhar sobre a linha que separa o intencionalmente tosco e o que se torna ridículo. A série sempre fez bem suas escolhas, mas passa um pouco do ponto na terceira temporada. Lá pela terceira grande briga entre os adolescentes, o público já está com o telefone na mão para conferir suas notificações. Os 10 novos episódios poderiam ser resumidos em quatro ou cinco, o que daria agilidade à narrativa. Quando o último deles chega ao fim, a sensação que fica é de que as novas possibilidades geradas pela história deveriam ter sido apresentadas e aproveitadas lá pelo sexto episódio, e não guardadas para uma nova temporada.
Série
Série "Cobra Kai", da Netflix Crédito: Tina Rowden/Netflix
Ao fim, a terceira temporada de “Cobra Kai” continua sendo um ótimo entretenimento sustentado pela nostalgia, mas ela funciona mais como uma preparação para a quarta e possivelmente última temporada do que como uma jornada própria, que acrescenta novidades à trama. Ainda assim, leve e divertida, a série é o programa perfeito para uma maratona nesse início de 2021.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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