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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Série "Equinox", da Netflix, é ótima, mas difícil de entender

Minissérie dinamarquesa "Equinox", da Netflix, adapta podcast de sucesso em uma história de clima policial cheia de mitologia nórdica

Vitória
Publicado em 30/12/2020 às 23h05
Série
Série "Equinox", da Netflix. Crédito: Tine Harden/Netflix

Quando foi inicialmente divulgada, a série dinamarquesa “Equinox” logo despertou comparações com o sucesso alemão “Dark”. A série, que leva para as telas o podcast de sucesso “Equinox 1985”, é centrada em um mistério: o desaparecimento de 18 jovens dinamarqueses no dia em que celebravam suas formaturas na escola - é tradição no país que os jovens entrem em um caminhão ou ônibus e passem na casa da família de cada um deles, uma maneira de agradecer aos pais.

“Equinox”, a série, tira a trama de 1985 e a leva para duas linhas temporais, uma em 1999 e outra em 2020. Astrid (Danica Curic) é uma radialista cuja irmã, Ida (Karoline Hamm), desapareceu no incidente. Um dia, enquanto trabalhava, recebe uma ligação misteriosa de um dos três sobreviventes, o ex-namorado de Ida. Perturbada pelos fantasmas da qual se achava livre há tempos, Astrid parte em busca da verdade. O que, afinal, realmente aconteceu com Ida e os outros 17 desaparecidos?

Apesar das comparações com “Dark”, “Equinox” mais lembra a estrutura narrativa de “The Sinner”. Ao longo dos seis episódios, a minissérie vai e volta no tempo, fazendo com que entendamos a importância das descobertas de Astrid a partir de tudo o que antecedeu o incidente de 1999. Acompanhando Ida e seus amigos, o público vê a história se revelar diante de seus olhos à medida que a protagonista vai desvendando mistérios.

A série acompanha também um pouco do que aconteceu a Astrid após o desaparecimento da irmã. Com dificuldade para lidar com a perda, a jovem criou histórias fantasiosas em sua cabeça e acabou internada em uma instituição de tratamento psiquiátrico. Enquanto o pai acreditava que Astrid sofria com um trauma e poderia ser curada, a mãe entendia que ela demonstrava um poder único de ligação com a irmã.

Sem entrar em spoilers, é possível dizer que a trama mergulha no folcore da região e na deusa dinamarquesa Ostara (também presente em regiões da Alemanha), a deusa de fertilidade. A lenda de Ostara, inclusive, foi incorporada pelos anglos-saxões após a catequização dos povos nórdicos - o resultado é a Páscoa, celebrada no equinócio de primavera/outono (olha a dica aí...), e os ovos coloridos. A lenda conta que a deusa achou ovos coloridos em cada lugar que se encontrou com o Rei Lebre. Quando os ovos chocavam, coelhos saíam de dentro deles, coelhos estes que seriam hoje os responsáveis pela entrega dos ovos de Páscoa.

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Série "Equinox", da Netflix. Crédito: Tine Harden/Netflix

Voltando a “Equinox” (não que tenhamos saído…), a série pode não funcionar para todo mundo. O ritmo é lento e a trama, carregada de simbologias que provavelmente pouco significam para boa parte do público. Para essa audiência, o roteiro pode ser decepcionante ao ensaiar uma trama policialesca e entregar algo mais sobrenatural, folclórico até.

O texto tem ótimo início, com um primeiro episódio intrigante que faz com que queiramos continuar assistindo à série. No meio da narrativa, no entanto, a atenção já foi embora e o que se vê em tela pouco parece importar. Em sua conclusão, pelo menos, “Equinox” busca situar o espectador e o faz de maneira competente - comete alguns excessos narrativos, mas nunca abusa do didatismo, uma opção arriscada para uma série numa plataforma popular e que significa que muita gente vai terminar o sexto episódio sem ter ideia do que acabou de ver.

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Série "Equinox", da Netflix. Crédito: Tine Harden/Netflix

Admito ter assistido aos minutos finais da série algumas vezes buscando significados e possibilidades de entendimento diferentes, mas só quando fui pesquisar sobre Ostara é que realmente entendi o que tinha acabado assistir. 

“Equinox” não é ruim, pelo contrário. Produzida por Piv Bernth (“The Killing”, “The Bridge”), a série é muito bem feita, com boa construção de universo, bons personagens e um mistério interessante. O problema reside no fato de ela se sustentar exclusivamente sobre uma lenda que não faz parte da vida de muita gente. Talvez na Europa o entrave da mitologia nórdica não seja um problema, mas, por aqui, mesmo aquela pessoa que se considera versada em cultura nórdica após seis temporadas de “Vikings”, 100 horas de jogo em “Assassin’s Creed Valhalla” e livros de Neil Gaiman pode ter dificuldade em entender a boa série dinamarquesa.

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