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Crítica

"Bridgerton": série da Netflix é divertida e sensual

Primeira série produzida por Shonda Rhimes a chegar à Netflix, "Bridgerton" reinventa a Londres do Século XIX com pegada moderna e muita tensão sexual

Publicado em 29 de Dezembro de 2020 às 02:14

Públicado em 

29 dez 2020 às 02:14
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "Bridgerton", da Netflix Crédito: Liam Daniel/Netflix
A primeira empreitada de Shonda Rhimes na Netflix finalmente está disponível. Após o acordo estimado em US$ 150 milhões, a produtora levou sua empresa, a Shondaland, para a gigante do streaming, em 2017, mas só agora, três anos depois, a primeira obra com sua assinatura chega ao serviço. Baseada no livro homônimo de Julia Quinn, “Bridgerton” é um grande acerto justamente por amenizar a assinatura de Rhimes e trazer uma série com frescor ao invés de apenas reformular a fórmula que já vinha dando certo.
Situada na Londres do Século XIX, “Bridgerton” é um mergulho em um “mercado de casamentos”. A cada temporada, famílias colocam adolescentes solteiras “no mercado” para encontrar um marido, tudo acompanhado de perto pela elite londrina como se fosse uma espécie de Draft da NBA ou de algum outro esporte popular dos EUA, ou seja, há especulação, apostas, bastidores e muita fofoca. É nesse mercado que se encontra um ponto central da série: gente bonita se cortejando e, claro, se pegando.
É na fofoca , inclusive, que reside outro aspecto fundamental de “Bridgerton”. Tal qual em “Gossip Girl”, a nova série da Netflix tem uma narradora misteriosa, a Lady Whistledown (voz de Julie Andrews). A narração é a leitura de seus jornais e conduz os 10 episódios dessa leva inicial.
A primeira temporada é centrada em Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor), a filha mais velha da família que dá título à série. Bonita, educada e de família tradicional, Daphne é considerada o “grande prêmio” da temporada de casamentos. Do outro lado da trama está o Duque Simon Basset (Regé-Jean Page), o solteiro mais cobiçado de Londres. O duque é um mistério e pouco se sabe sobre ele além do fato de ele afirmar que nunca vai se casar. Os dois acabam entrando em um acordo: fingirão estar juntos para atrair a atenção para Daphne e afastar de Simon as mães que o tempo todo lhe empurram suas filhas. Está posta à mesa a outra grande influência do texto, as obras de Jane Austen.
“Bridgerton” é uma super produção com grandes cenários e ambientação impecável. No universo criado por Quinn, o Rei George III se casou com uma mulher negra, a rainha Charlotte (Golda Rosheuvel), o que resultou no fim de tensões raciais na elite londrina - o machismo, no entanto, continua presente. A série fala o tempo todo sobre a honra das jovens e das famílias, utilizando a questão para movimentar o roteiro. A série também amplia o leque de questões abordadas pelo material origina, trazendo ainda relacionamentos homossexuais e poliamorosos.
Série
Série "Bridgerton", da Netflix Crédito: Liam Daniel/Netflix
Cheia de anacronismos intencionais (destaque para a trilha sonora), a série tem ótimos personagens, homens e mulheres, mas é um texto voltado para elas. O casal de protagonistas tem muita química, mas é em torno de Daphne que a trama gira. Há também boas subtramas, como a de Eloise Bridgerton (Claudia Jessie) e as de alguns de seus irmãos, mas elas acabam não sendo suficientemente desenvolvidas a ponto de roubar a atenção do público - não são rasas, mas servem apenas como estofo para a série.
Um dos pontos legais de “Bridgerton” é a maneira como a série constrói a sociedade - não há grandes vilões, exceção feita a um personagem que desaparece após cumprir seu papel no roteiro. A ausência de antagonistas pré-definidos oferece ao espectador a possibilidade de se identificar com diversos personagens - com Daphne e sua busca pelo amor, com Eloise e seu desejo por direitos iguais ou até mesmo com Anthony e seu relacionamento improvável com Siena. “Bridgerton” ganha a simpatia do espectador com a busca pelo improvável, seja um amor impossível ou quebra de paradigmas e convenções sociais, todos os personagens buscam algo.
Outro pilar dos livros de Julia Quinn, o sexo também dá as caras na série. “Bridgerton” acerta ao criar tensão sexual entre personagens e filmar suas cenas de modo mais elegante e sensual do que explícito - a série consegue, por exemplo, ser muito mais provocante do que o péssimo filme “365 Dias”, sucesso na Netflix por seu teor sexual.
Série
Série "Bridgerton", da Netflix Crédito: Liam Daniel/Netflix
“Bridgerton” adapta o primeiro dos oito livros de Quinn, “O Duque e Eu”, o que significa que há muito material a ser explorado futuramente pela série da Netflix. Cada um dos livros, vale ressaltar, se concentra em uma das oito “crianças” Bridgerton. A série felizmente é mais ampla; mesmo que Daphne e Simon sejam o centro da primeira temporada, há muito além deles.
Ao contrário das outras séries produzidas pela Shondaland, como “Grey’s Anatomy”, “Scandal” e “How To Get Away With Murder”, “Bridgerton”, pelo menos em sua temporada de estreia, não tem reviravoltas e mortes aguardando o público a cada esquina. Ao invés disso, Chris Van Dusen, showrunner e criador da série, aposta em bons personagens, tensão sexual e em uma trama que desperta empatia do público. A Netflix tem em mãos uma série que tem tudo para se desenvolver em várias temporadas. Isso, claro, se não resolverem cancelar tudo no meio do caminho.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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