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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Sweet Home": terror coreano da Netflix é tenso e muito divertido

Série coreana "Sweet Home", da Netflix,  é uma ótima pedida para quem busca terror com uma pegada moderna e diversas metáforas sobre a humanidade

Vitória
Publicado em 25/12/2020 às 18h00
Série coreana
Série coreana "Sweet Home", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

“Talvez o mundo esteja finalmente acabando”, diz um dos personagens de “Sweet Home” ao final do primeiro episódio da série lançada esta semana pela Netflix. Sim, “Sweet Home” é (mais) uma série apocalíptica, o que, admito, me deu certa preguiça antes de conferir o excelente primeiro episódio.

Adaptação de uma HQ lançada on-line em 2017, a série coreana de terror é uma das surpresas mais legais deste fim de ano na Netflix. Em 10 episódios de cerca de 50 minutos cada, a trama a princípio acompanha Cha Hyun Su (Song Kang), um jovem às voltas com um evento traumático em sua vida. Ele se muda para um condomínio para ficar sozinho e não ser incomodado, mas, de repente, coisas estranhas começam a acontecer por lá.

Logo somos apresentados também a diversos outros personagens do prédio, cada um com sua esquisitice e sua história pregressa. Um dos defeitos de “Sweet Home” é ter episódios longos demais, mas isso ao menos possibilita que todos os muitos personagens tenham seus momentos de desenvolvimento - alguns são mais interessantes, enquanto outros estão ali apenas para morrer.

No fim do mundo de “Sweet Home”, boa parte da população de Seul se transformou em monstros praticamente imortais. Nesse cenário, o prédio ainda é um lugar seguro, mas é claro que alguns dos moradores já se transformaram e a ameça está sempre à espreita.

Em diversos momentos, a série coreana da Netflix tem narrativa e pegada similar às de “O Hospedeiro” (2006), de Bong Joon-Ho (“Parasita”), misturando humor e aventura a uma história de terror em que tememos por todos os personagens. O texto da série é ágil, esperto e consegue boas tiradas ao explorar os absurdos do comportamento de lguns sobreviventes.

Série coreana
Série coreana "Sweet Home", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

O roteiro também afasta a ficção científica e abraça o terror quando trata as transformações não como uma doença, mas como uma maldição - o que também afasta a série de comparações com a atual pandemia. Tudo tem a ver com o desejo humano, e, por isso, há várias reações distintas para as transformações; não é uma maldição contagiosa e nem todos viram monstros, cada um reage de uma forma. São as ambições e os desejos individuais que decidem se o indivíduo será ou não um monstro.

“Sweet Home” tem efeitos visuais apenas medianos, mas não tenta fazer com o que os monstros pertençam ao ambiente. O resultado é irregular, às vezes funciona bem, mas em outras parece um jogo de qualidade questionável. Nas sequências de ação, a série foca na reação dos humanos, o que ajuda não apenas a esconder os efeitos computadorizados, mas também a mexer com o público.

Série coreana
Série coreana "Sweet Home", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

É interessante perceber também as diferenças culturais. Ao contrário de obras japonesas como “Alice in Borderland”, “Sweet Home” é bem mais ocidentalizada e tem menos receio de tratar assuntos como depressão, pedofilia, suicídio e violência doméstica, por exemplo. A série também coloca mulheres em posição de destaque, mas nunca é panfletária quanto a isso.

Como toda série pós-apocalíptica, “Sweet Home” usa o fim do mundo como desculpa para explorar as contradições humanas - no fim do mundo, o ser humano acaba se tornando bem mais perigoso do que zumbis ou monstros. Assim, ao mergulharmos nas histórias de cada um dos personagens, vamos entendendo seus atos e também suas transformações ao lidarem com a maldição.

“Sweet Home” é uma série tensa, um terror bem feito, com boas doses de humor e muito drama humano. Após um bom início, a série dá uma desacelerada nos episódios intermediários, mas volta com tudo para sua conclusão a partir do incrível episódio 8. É a partir desse ponto que a série realmente mostra a que veio e que seus personagens encontram suas posições no tabuleiro da trama.

A série traz diversas referências, de Stephen King a “The Walking Dead” (um certo bastão de beisebol), passando por “Zumbilândia” e também por “Resident Evil” (os jogos, não os filmes), com influências da britânica “Dead Set” em alguns momentos. Caricatos, os personagens têm seus papéis bem definidos e cumprem suas funções na composição do arco maior. Mesmo com bons atores e personagens, “Sweet Home” não é uma série voltada para o desenvolvimento deles, mas para a tensão e a diversão - o texto nunca tem vergonha de se assumir ridículo ou absurdo se for em nome do entretenimento.

Série coreana
Série coreana "Sweet Home", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

A série mostra o poder da indústria cinematográfica coreana, com excelente nível de produção, bons atores e uma expertise narrativa de fazer inveja. Há, sim, personagens em excesso, mas isso também significa que há muitas mortes criativas para muitos deles. “Sweet Home” seria ainda melhor com menos episódios ou episódios menores - a parte central da temporada tem três ou quatro tramas que poderiam ser condensados em apenas uma. Nada disso, porém, tira da série o que é ela pode oferecer com qualidade: terror, sangue, diversão e boas metáforas sobre o comportamento humano.

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