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Eleições 2022

O troca-troca partidário e o empreendedorismo político

A migração de siglas sem um compromisso ideológico ou programático é o sintoma de algo grave, que corrói a democracia e cobra a fatura no bolso dos contribuintes

Publicado em 11 de Abril de 2022 às 10:11

Públicado em 

11 abr 2022 às 10:11
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves
Plenário da Câmara dos Deputados. Parte dos parlamentares participa da sessão virtualmente, em meio à pandemia de Covid-19
Plenário da Câmara dos Deputados: 24% dos parlamentares trocaram de legenda durante a janela partidária Crédito: Cleia Viana/Câmara dos Deputados
O Partido Ecológico Nacional (PEN) mudou de nome, oficialmente, em 2018 para Patriota. A ideia era ser um chamariz para filiar o então deputado federal Jair Bolsonaro à legenda. O Patriota é um partido conservador, de direita. Tinha em seus quadros até recentemente, no Espírito Santo, por exemplo, o vereador de Vitória Gilvan da Federal, uma espécie de mini Bolsonaro.
O deputado estadual Doutor Hércules saiu do MDB e aportou justamente no Patriota, segundo ele na última sexta-feira (1), último dia da janela partidária que permitiu a deputados trocar de legenda. Hércules, no entanto, tentou, primeiro, ingressar no PSB, o Partido Socialista Brasileiro, do governador Renato Casagrande, que faz oposição a Bolsonaro e é uma sigla de centro-esquerda.
Os matizes diferentes dos dois partidos pareceram não importar. E o caso do deputado não é isolado, diversas trocas partidárias na janela ocorreram por motivos pragmáticos – a chance de reeleição – e não pelo fato de o partido representar ou planejar algo com o qual o deputado ou deputada em questão concorde.
O Brasil tem 32 partidos. De fato, não há 32 projetos de país. Logo, a coisa está desenhada para permitir esse troca-troca sem critério mesmo, partindo de interesses individuais e não coletivos. O cientista político Fernando Pignaton chama tal fenômeno de uma manifestação do "empreendedorismo político".
E essa não é uma constatação qualquer. É algo que enfraquece a democracia em um momento em que ela já está fragilizada, não somente no Brasil.
"Esse empreendedorismo político, cada um por si, é solo fértil para aparecer o salvador da pátria, o líder carismático. A coisa é interpessoal. Aparece o individualismo, fortalece esse tipo de liderança e não as instituições democráticas", alerta Pignaton.
A fragmentação política é, por vezes, uma forma de enfraquecer o parlamento e torná-lo mais maleável ao governante da ocasião. O Congresso Nacional, no entanto, tem ditado as cartas no governo Bolsonaro, por meio do Centrão, que cooptou ministérios relevantes, além do comando da Câmara dos Deputados.
E as migrações partidárias que ocorreram na janela deram ainda mais força ao Centrão. Partidos como PL, PP e Republicanos saíram turbinados em número de deputados. Em relação ao PP, o Espírito Santo ajudou.
A janela partidária, um período de 30 dias aberto a seis meses da eleição, não é novidade. Mas algo novo foi introduzido este ano: o fim das coligações, que já valeu para a eleição de vereadores em 2020 e agora é aplicado pela primeira vez na eleição de deputados estaduais e federais.
Sem as coligações, os partidos não podem formar times que acomodem os candidatos de forma a potencializar a eleição de um ou outro. Têm que fazer isso com os próprios quadros.
A vantagem é que o eleitor não corre o risco de votar no candidato do partido A e eleger outro, do partido B.
Mas em relação ao troca-troca fisiológico, de olho apenas nos resultados eleitorais, o fim das coligações não resolveu o problema.
Teve até presidente de partido mudando de legenda.
Uma coisa nova foi a introdução das federações, que permitem a união de siglas não apenas para garantir votos, como eram as coligações, mas por quatro anos, como se fossem uma legenda só.
Assim, PT, PCdoB e PV se juntaram. São partidos que têm alguma identificação, não é algo tão aleatório quanto as coligações, já é uma vantagem.
Cidadania e PSDB, além de PSOL e Rede, tomaram a mesma medida.
Num cenário de fragmentação partidária em que cada deputado olha apenas o próprio interesse, os reflexos não se dão apenas na configuração do Congresso e no (des) equilíbrio de forças na hora de se relacionar com o Executivo.
DINHEIRO PÚBLICO
Isso tem reflexos na elaboração do Orçamento. As emendas, inclusive as do orçamento secreto, são a forma pela qual os deputados interferem, dizendo onde deve ser alocado o recurso público.
Mas isso não se dá de acordo com uma lógica, um plano definido pelos partidos ou as prioridades elencadas pelo próprio governo.
Assim como a escolha do partido em que pretendem ingressar, os parlamentares decidem o destino das emendas de acordo com interesses paroquiais e individuais. Calculam o que deve beneficiá-los eleitoralmente, de forma mais imediata.
Ou seja, todo esse troca-troca partidário sem um compromisso ideológico ou programático é o sintoma de algo grave, que corrói a democracia e cobra a fatura no bolso dos contribuintes.

Letícia Gonçalves

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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