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Assembleia Legislativa

O que está por trás da exigência de uso de terno e gravata por deputados do ES

Não, não é a volta do auxílio-paletó. Sérgio Meneguelli (Republicanos) e suas camisetas incomodam e eleitores se deixam levar por discursos rasos

Públicado em 

18 mai 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Deputado estadual Sérgio Meneguelli
Deputado estadual Sérgio Meneguelli Crédito: Lucas S. Costa/Ales
A resolução que obriga os deputados da Assembleia Legislativa do Espírito Santo a usarem "paletó, camisa social, gravata, calça ecalçado adequado" nas sessões e reuniões da Casa foi publicada nesta quarta-feira (17). Ou seja, já está valendo. 
A regra, proposta pelo presidente Marcelo Santos (Podemos), foi aprovada à unanimidade pelos próprios parlamentares na última segunda-feira (15) e tem um alvo certo.
Não, caros leitores, não se trata de recriar o "auxílio-paletó", extinto desde 1995.
A resolução impõe o uso do terno, mas libera o "fardamento de gala", para deputados oriundos de instituições militares, e não proíbe a ostentação de chapéu.
Assim, Capitão Assumção (PL), da reserva da PM, vai continuar a comparecer à sede do Legislativo trajando o uniforme social da corporação, composto por uma túnica cinza.
E Pablo Muribeca (Patriota) não precisa abandonar seu chapéu de cowboy.
As camisetas de Sérgio Meneguelli (Republicanos) em plenário, contudo, estão barradas.
O ex-prefeito de Colatina transformou a peça com o nome da cidade em uma espécie de marca registrada. "Eu amo Colatina" ou "Eu amo o Espírito Santo igual Colatina" são os dizeres estampados. 
Para não destoar tanto dos colegas, ele usa uma jaqueta jeans. 
Com a nova resolução, porém, deve adotar um novo visual. 
Semanticamente, Meneguelli pode até insistir na jaqueta, uma vez que "paletó" poderia ser descrito como um casaco, geralmente com bolsos, que se veste por cima de outra roupa. Ninguém disse que precisa ser de linho ou coisa parecida. 
Mas dificilmente uma camiseta se passa por camisa social.
Chamou a atenção que Marcelo Santos tenha se dado ao trabalho de conversar individualmente com alguns deputados e inserir a norma em um projeto de resolução que tratou de diversos temas.
Pragmaticamente, diversos deputados estaduais têm planos eleitorais. O próprio Marcelo já revelou que, em 2026, pretende disputar uma vaga de deputado federal. 
 Meneguelli, se não o ameaça, pode ser uma pedra no sapato de outros.
Logo, reduzir a capacidade de jogo de cena do republicano pode ser estrategicamente relevante.
DISCURSO RASO
O ex-prefeito se apresenta como um "homem do povo", que se recusa a usar roupas chiques, ao contrário dos "almofadinhas", que preferem grifes.
É um discurso raso. O próprio Meneguelli argumentou, por diversas vezes, que a forma de se vestir não dá a medida do caráter de uma pessoa.
Isso é uma faca de dois gumes, embora o eleitorado deixe-se, muitas vezes, levar. 
Da mesma maneira que usar camiseta, jaqueta jeans e tênis All Star não diminui a capacidade de Meneguelli de legislar e fiscalizar o Executivo, também não a aumenta.
Ser um "homem do povo" é muito mais do que usar camiseta ou comer marmita, por exemplo.
Para começar, "o povo" precisa de parlamentares atentos, que compreendam suas funções e se atenham a elas.
Como já registrado aqui, a aprovação da obrigatoriedade do uso de terno e gravata por deputados na Assembleia foi unânime. Meneguelli discursou, antes da votação, e se opôs à medida.
Mas não manifestou o voto contrário. Como a consulta foi simbólica, ele foi contabilizado entre os votos favoráveis. 
Outro exemplo: quando a Corregedoria da Casa foi eleita, no último dia 9, Meneguelli reclamou da forma açodada com que a chapa foi formada, em meio à sessão e em cima da hora da votação. "Por que a pressa?", questionou.
Ocorre que a Corregedoria, pelo regimento interno da Casa, deveria ter sido eleita em fevereiro. 
E os parlamentares somente "lembraram" disso três meses depois porque representações contra Lucas Polese (PL), deputado que se recusou a fazer o teste do bafômetro quando dirigia um carro oficial da Assembleia, começaram a bater à porta.
Ou seja, não havia "pressa" e sim um grande e injustificado atraso.
UTILIDADE
Como já pontuei, ao revelar que o projeto para obrigar o uso do terno estava protocolado, concordo com Meneguelli que a forma como um deputado se veste pouco diz sobre seu caráter ou a qualidade do mandato que exerce.
Exageros, porém, devem ser podados, para que os parlamentares não façam justamente o contrário: usem roupas e adereços como protagonistas, para chamar a atenção, em detrimento de suas palavras e votos.
Nesse sentido, seria mais útil proibir "roupas de polícia" e coberturas, como chapéus e bonés, e ainda camisetas com frases em letras garrafais em plenário. 
O paletó e a gravata são o de menos.
Em tempo: nesta quarta-feira (17), a sessão plenária da Assembleia foi híbrida. 
Parte dos deputados participou presencialmente e outra parte, por vídeo. Meneguelli apareceu virtualmente, usando a tradicional camiseta. 
Outros parlamentares que ingressaram na sessão remotamente também não atenderam a todos os requisitos da nova norma.
A resolução diz que os "deputados deverão comparecer adequadamentetrajados", mas não fala nada sobre o "comparecimento virtual", digamos assim.
Na próxima segunda-feira (22), não vai haver sessão. É ponto facultativo, devido ao feriado da terça (23) – Colonização do Solo Espírito-Santense. Assim, a próxima sessão presencial vai ocorrer apenas no dia 29.
Se Meneguelli não aparecer de "paletó, camisa social, gravata, calça ecalçado adequado", não vai ter a presença computada, não vai poder discursar e nem votar. 
E ainda vai correr o risco de ser alvo de procedimento na Corregedoria por quebra de decoro.
A coluna tentou falar com o deputado nesta quarta, após a sessão, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Correção

19/05/2023 - 7:59
A coluna, originalmente, registrou que a próxima sessão presencial no plenário da Assembleia ocorreria no dia 22 de maio. Esqueceu-se do feriado da Colonização do Solo Espírito-Santense. A próxima sessão presencial, na verdade, vai ser realizada no dia 29. A informação foi corrigida.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.

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